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quinta-feira, 24 de novembro de 2016

BARBERA VALDEVANI


 


Há algumas décadas, mais exatamente nos anos 1980, muitos produtores do Piemonte resolveram sacrificar a tradição, para atender o "mercado", partiram decididos e "internacionalizaram" seus vinhos.

Era preciso buscar a super concentração nos vinhos, a cor "berinjela", mastigáveis, impenetráveis, alcoólicos, cansativos e previsíveis.
 

Nascem, naqueles anos, os Barolo "modernos", as Barbera barricadas e até o simples e belo Dolcetto é desfigurado na imbecilizante tentativa de torná-lo "importante", potente, internacional.
 
 

Era a moda!

 Nasce o conceito de colheita das uvas super maduras, do desbaste excessivo, do concentrador etc..

Quando o produtor não conseguia, colhendo uvas super maduras e desbaste radical (um ou dois cachos por pé), um vinho quase mastigável e mais parecido com uma geléia, o concentrador entrava em cena.

Grosso modo o concentrador funcionava com a lógica do vácuo: concentrava, sem misericórdia, não somente os açucares, mas tudo o que havia no mosto, obrigando o produtor a intervir tentando corrigir o vinho com outras operações invasivas.
 

O resultado: vinhos que podiam ser cortados com uma faca, mas que agravam Parker, seus sequazes, ao mercado americano e a um monte de eno-tontos.

Hoje, infelizmente, ainda há mercado para os vinhos "marmelada", mas o declínio do consumo é evidente e os produtores já perceberam , faz tempo, que ocorreram grandes mudanças na preferência dos consumidores.
 

Com a mesma velocidade, que tiveram ao adotá-lo, aposentaram o concentrador que hoje é peça de museu.

Mauro, que de bobo não tem nada, confessa: "Nos ano 80 e especialmente 90, nos produzíamos para agradar guias, jornalistas, pontos, bicchieri etc. Eram os anos do concentrador. Quem não tivesse um concentrador na adega era considerado jurássico, desatualizado, quase um retardado. Vinhos densos, impenetráveis estavam na moda e para obtê-los foram cometidos erros e mais erros. Eu percebi a bobagem e abandonei o concentrador há muitos anos"

Poucos viticultores teriam a coragem de confessar o uso daquela maquina de fazer compotas em suas adegas..... Mauro fez o "mea culpa", daí sua honestidade.
 

Enquanto o papo corria solto e os alemães, na mesa ao lado, não largavam o copo, eu degustava a ótima Barbera Valdevani.

Mauro Sebaste tem bom faro, conhece seu território e não teve dúvidas em investir em Vinchio comprando, naquela localidade, algumas vinhas de Barbera.

Para quem não sabe, as belas colinas de Vinchio e Vaglio Serra são consideradas entre as melhores para a produção da Barbera.
 

As terras de Vinchio e Vaglio Serra não produzem uvas comuns, banais e sem valor, doam uvas Barbera de se tirar o chapéu.

Não vou citar nomes, mas alguns (vários) produtores, de etiquetas premiadas, caras e badaladas, compram Barbera de pequenos produtores de Vinchio e Vaglio Serra, por 2 Euros o litro, engarrafam o vinho em suas adegas e o revendem, por 20/30 Euros a unidade, para a alegria dos eno-tontos, adoradores de etiquetas, "bicchieri" e pontos.

Mauro sabe o que as terras de Vinchio são capazes de doar às Barbera e sua "Valdevani Barbera D'Asti" 2015 representa, com muita personalidade, aquele território.
 

A "Valdevani Barbera D'Asti 2015", que provei na adega de Sebaste, é vinificadas com uvas de vinhas com mais de 60 anos, apresenta uma cor rubi brilhante, nariz característico, vinoso e na boca............ Bem , na boca é uma festa.

Barbera clássica, equilibrada, sem predominância do álcool, fácil de beber e que, imediatamente, lembra as antigas e ótimas Barbera que esquentavam e alegravam as tardes e noites de nossos avôs.
 

A "Barbera Valdevani": um triunfo da tradição e do bom beber.

Mauro Sebaste, inteligente viticultor, percebeu que os modismos e os Parker passam, mas a Barbera clássica, a Barbera símbolo do bem beber e do Piemonte não morrerá jamais.

"Valdevani Barbera D'Asti 2015": vale cada um dos 12 Euros que custa.

Bacco

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

BLANC DE MORGEX ET DE LA SALLE III


 


Perdidas as esperanças, de encontrar a "Nus Malvoisie", do pároco Don Pramatton, resolvi seguir viagem e dormir em Courmayeur.

Apesar da neve e do frio intenso, os 70 km, que separavam Nus de Courmayeur não arrefeceram meu ânimo e decidi jantar no "La Maison De Filippo" no distrito de Entreves.

A autoestrada era a opção mais rápida, segura, mas dezenas de túneis não me permitiriam admirar a bela paisagem alpina.
 

Tempo de sobra, pouco movimento....... Resolvi seguir viagem pela via marginal, mais lenta e mais bonita.
 

Quando se passa pelas aldeias de Morgex e La Salle a visão das vinhas, que doam o bom branco local, é impressionante.

É difícil acreditar que naquela altitude (1.000 metros) e clima hostil, as vinhas possam sobreviver e as uvas amadurecer.

Parei inúmeras vezes para admirar o incrível trabalho dos viticultores da região que, com tenacidade e uma boa dose de loucura, cultivam as vinhas em pequenos lenços de terra que a montanha rochosa "esqueceu" de devorar.
 

É impressionante a visão dos muros de pedra que servem de arrimo para os terraceamentos onde são plantadas as vinhas de Prié Blanc, casta que origina o "Blanc de Morgex et De La Salle".

As vinhas de Prié Blanc "escalam" as montanhas até alcançarem impensáveis 1.250 metros, assim, é fácil concluir que as videiras de Morgex e La Salle, as duas aldeias que doam o nome à DOC, estão entre as mais altas da Europa.
 

Mas como podem as vinhas sobreviver e frutificar em um ambiente tão hostil?

Vamos conhecer um pouco mais a Prié Blanc e suas origens.

A casta

A "Prié Blanc" poderia ser classificada como um milagre, mas prefiro entendê-la como um fenômeno.

A casta, única autóctone branca da Val D'Aosta, está presente na região desde tempos imemoráveis e aos poucos conseguiu se adaptar, perfeitamente, às rigorosas condições climáticas dos Alpes.
 

São poucas as variedades que poderiam suportar o frio e o gelo que imperam nos 1.000 metros de altitude de Morgex e La Salle e não surpreende, então, o fato da "Prié Blanc" ser a única cultivada nas aldeias e a única, também, que conseguiu se adaptar ao rigor do clima.

É preciso lembrar que as das aldeias estão a poucos quilômetros do Monte Branco e o clima é de alta montanha....

Para ter uma idéia da adaptação da "Prié Blanc" é preciso lembrar que nestes vales alpinos o inverno é longo, rigoroso e o verão muito curto.
 

A variedade desenvolveu, ao longo dos séculos, um ciclo vegetativo bastante breve, que é caracterizado por uma brota muito retardada e uma precoce maturação dos cachos.

Outra rara característica: A "Prié Blanc" é a única variedade branca, da Val D'Aosta, plantada sem enxerto (pé franco).

As condições climáticas, rigorosas, protegeram a "Prié Blanc" dos ataques da filoxera.
 

Para "se aquecer", com o calor armazenado pelo solo, o cultivo escolhido pelos viticultores é o da "latada baixa".

 "Latada baixa" significa: a pérgula, para receber um pouco de calor do solo, não pode ultrapassar um metro de altura.

 O pouco espaço, entre o solo e as ramas, dificulta sobremaneira o trabalho do viticultor que é obrigado a trabalhar sempre curvado.

O sacrifício é compensado pela pouca umidade e boa ventilação.

A pouca umidade e boa ventilação defendem, naturalmente, as plantas dos ataques dos fungos que quase inexistem na região.

O Vinho

 

O "Blanc de Morgex et de La Salle" é um vinho que raramente ultrapassa os 12°, deve ser consumido em sua juventude, quando exprime todos seus delicados aromas e características.

O "Blanc de Morgex et de La Salle 2015" de Ermes Pavese é um vinho límpido, agradabilíssimo, um irresistível convite para sempre mais um copo.

Rico de tons floreais e minerais, o vinho do Pavese, é uma pequena jóia enológica que custa, pasmem, 8/10 Euros.
 

Para perceber como nós, consumidores brasileiros, somos otários, bastaria lembrar que a "Miolo/Bueno Vinhos de Carregação" vende o "Chardonnay Couvée Giuseppe" (Giuseppe, foi o patriarca da Miolo que descobriu o Lote 43) por insultuosos R$ 110 (30 Euros).
 

Bacco

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

NUS MALVOISIE




 


"Vou até a adega procurar um vinho que você nunca provou".
 
 

Eram 16 horas. 
 
 
 
 
 
 
 
 

O almoço dominical, mais parecido com uma maratona gastronômica, que iniciara ao meio dia e, pelo jeito, terminaria após o jantar, fora regado com ótimas Barbera e grandes Barolo.

 
Olhei surpreso e não acreditei que meu tio materno pudesse me surpreender com um vinho que desbancasse os grandes tintos consumidos durante o almoço.

Beppe demorou longos minutos e finalmente voltou carregando, triunfante, uma garrafa tão empoeirada que quase não deixava transparecer a cor do vinho.

"Esta garrafa tem uma longa historia....... Nos anos 1950 fui militar no Val D'Aosta, mais especificamente em Nus. Nus não é exatamente uma metrópole e nas noites nevadas não havia nada para fazer a nos ser jogar cartas e, para espantar o frio, beber. Bebíamos vinhos locais: Donnas, Torrrette, Chambave Rouge, Carema. Vinhos que custavam pouco e podíamos comprar. Bons vinhos, mas nenhum tão diferente, intrigante e complexo como esta "Nus Malvoisie"
 

Enquanto falava, meu tio segurava, com ciúmes, aquela garrafa empoeirada.

"Esta Malvasia, de 1954, é a última garrafa que restou das seis que comprei do pároco da cidade.

Era um dia de setembro de 1986.

Aquele vinho, com mais de 30 anos, me deixou literalmente petrificado.

Olhava para meu tio, que sorria maliciosamente, olhava para aquela garrafa e não conseguia proferir palavra.

Um extraordinário vinho de meditação de intensa cor dourada com reflexos âmbar e..... sinceramente, não consigo lembrar e definir o aroma e paladar.
 

Não quero prolongar a narrativa para não cansar, com exaustivos detalhes, o leitor que já suporta minhas longas divagações, mas devo declarar que dois dos melhores vinhos, de "meditação", que já bebi em minha vida foram: um "Picolit Perusini" e a "Nus Malvoisie" do Don Pramotton, pároco de Nus.

Infelizmente nunca mais encontrei um "Picolit" que me emocionasse e, com sua morte, Don Pramatton levou consigo o segredo de sua incomparável "Nus Malvoisie".

Tempos depois, impressionado e lembrando aquela "Malvoisie", resolvi empreender uma viagem para conhecer, melhor, os vinhos da Val D'Aosta.

A primeira parada, a mais importante, foi justamente em Nus à procura de uma "Nus Malvoisie" que pudesse me entusiasmar como aquela do padre Augusto Pramotton.
 

Provei várias, mas nenhuma chegou aos pés daquela que meu tio me ofereceu em 1986.

Quem quiser conhecer, uma interessante "Nus Malvoisie", deve procurar aquela produzida pela "Crotta di Vegneron" na versão "Nus Malvoisie Flétri".
 

A "Crotta di Vegneron" vinifica, também, um "Malvoisie" seco que não compromete, mas não entusiasma.

Bacco

domingo, 13 de novembro de 2016

BLANC DE MORGEX ET DE LA SALLE


 


Santa Margherita Ligure não é exatamente um paraíso para os amantes da boa mesa.

Há bons restaurantes, mas nenhum de altíssimo nível ou estrelado.

Turística, por excelência, Santa Margherita é "infestada" de restaurantes que praticam a mesma cozinha banal, monótona e previsível.

Não ha um único local que abra novos horizontes além dos onipresentes "Spaghetti alle Vongole, "Fritto Misto", "Tagliatelle al Pesto", "Pizza" etc.
 
 

Pratos baratos, manjados, mas que fazem a alegria dos visitantes que  acham que na Itália se canta, ainda e somente, "Sole Mio" e se dança "Tarantella".
 

"Pratos baratos", uma ova..... Pagar pouco e comer bem , em Santa Margherita , é um sonho , uma utopia;  os preços praticados, pelos predadores  nativos,  são salgadíssimos

O lema, dos proprietários, é: faturar muito e ferrar muito mais.

As adegas, dos restaurantes, acompanham a mediocridade das cozinhas; vinhos baratos e preços estrelares.

Há, ainda bem, exceções.

"Trattoria San Siro", "Antonio", "Oca Bianca", "Il Nostromo", "L'insolita Zuppa" são alguns locais que praticam boa cozinha, preços justos e que frequento, regularmente, mas em nenhum deles é possível encontrar uma carta de vinhos além do razoável.
 
 

"Experimente o Mog e diga que eu indiquei"

Fabio, um dos proprietários do "Sabot", meu bar preferido em Santa Margherita, respondia à minha pergunta: "Onde jantar bem hoje?"

 "Mog" é o mais novo restaurante sob os pórticos da cidade.
 

Os pórticos da orla abrigam os bares e restaurantes mais badalados e mundanos de Santa Margherita e recebem o maior fluxo de turistas que visitam a cidade; ninguém escapa dos pórticos.

Seguindo o conselho de Fabio, lá fui conhecer o "Mog".

Quando almoço ou janto em Santa Margherita, para não estuprar meu cartão, peço, quase sempre, uma taça de vinho da casa que, invariavelmente, é um Pigato ou Vermentino da pior qualidade.

O "Pigato", em algumas e raras vezes, consegue surpreender (Spigau uma das raras surpresas), mas o Vermentino é uma quase tragédia vinícola e, literalmente, "fa cagare".
 

O Vermentino não consegue ser apreciado por ninguém que viva a 250 metros depois dos confins da Ligúria (se oferecer um Vermentino para um piemontês dá briga...)  

Estava quase pedindo a costumeira taça de Pigato quando resolvi consultar a carta de vinhos.

Surpresa!

A carta de vinhos do "Mog", pequena, mas muito bem bolada, é a melhor da cidade.

Consultando a lista de brancos, para acompanhar o salmão que havia ordenado, quase cai da cadeira quando meus olhos encontraram, no elenco, um "Blanc de Morgex et De La Salle".
 

Em segundos minhas lembranças vinícolas voaram para o passado, para o final dos anos 1970, quando , pela primeira vez, provei a "Malvasia de Nus" e o "Blanc de Morgex".

Na próxima matéria: O pároco de Nus e sua incrível Malvasia.

Bacco

terça-feira, 8 de novembro de 2016

MAIS DIARREIA


Mais uma vez gostaria de analisar e tentar entender os nossos caros sommeliers, comentaristas, "experts" e críticos que perturbam e, muitas vezes, amargam o prazer de beber, tranqüilamente, nosso vinho de cada dia.

 É quase impossível não se sentir diminuído ao presenciar uma palestra, ouvir um comentário, uma opinião dos impávidos cavaleiros de Bacco (ops) que, sem pestanejar e nem ruborizar, encontram, numa simples taça de vinho, recônditos perfumes: Especiarias, pimentas, violetas, canela, cravo, couro, flores brancas, flores vermelhas, mirtilos, vime, groselha, estrebaria, pedra molhada, carne assada, peixe de rio, ouriço do mar (esses dois últimos são exclusividade de Beato Salu) etc..

Apesar de arrasado e desiludido, com meu ineficiente e inútil nariz, lanço uma pergunta aos sabujos tupiniquins: Se eu não perceber todos estes aromas me é permitido, mesmo assim, beber vinho?

Gostaria imensamente que um dos nossos Parker esclarecesse esta dúvida que me tortura e inibe o prazer de degustar uma simples taça de tinto ou branco.

Tenho certeza que um sommerdier de plantão me ajudará.
 

Aproveito, então, para fazer outra pergunta: se eu não perceber um retrogosto de folhas de tomate, componente tânica, sabores herbáceos, frutados, floreais, pimentas verdes, vermelhas ou pretas, amoras, cerejas, grape fruit, banana, cítricos etc. Devo consultar um otorrino ou posso continuar bebendo normalmente?

São perguntas que meus pais, avôs, bisavôs certamente nunca se fizeram e beberam, tranqüilamente, anos e anos na mais total e santa ignorância.

  Nossos pobres antepassados, coitados, que não sabiam beber com a classe e o refinamento de nossos "experts", jamais puderam perceber perfume de pedra molhada em suas libações.

 
 Pobres ignorantes, jamais saberão o que perderam.....

Nós, que ainda estamos vivos e aprendemos tudo, rapidamente, graças ao onisciente crítico que todos os dias, em uma estação de rádio, comenta e sugere com segurança e desenvoltura impar qualquer vinho, de qualquer lugar do planeta, como se tivesse nascido e morado dentro de uma barrique, somos afortunados enófilos.

Tenho um conhecido, em Stresa, que é sommelier e foi campeão italiano especializado em vinhos produzidos com uvas Nebbiolo.

 Intrigado com esta limitação e pensando em no nosso onisciente crítico radiofônico, que não conhece limites nem fronteiras, perguntei a Emilio Belossi o motivo de se dedicar a uma só casta.

A resposta não me surpreendeu, aliás, veio confirmar aquilo que sempre pensei – "É impossível conhecer tudo sobre todos os vinhos. Um médico clínico pode conhecer um pouco de tudo, mas não tudo. Quando o mal é mais sério, mais complicado, é preciso consultar um especialista. Com os vinhos é exatamente a mesma coisa".

 
O Emilio matou a charada.

 Para que se tenha uma idéia, da complexidade do assunto, vou apresentar alguns números estonteantes.

A produção mundial de vinho é de aproximadamente de 275 milhões de hectolitros.

As castas conhecidas, com as quais se produz vinho, são aproximadamente 2.000 (na Itália 355 e na França mais de 200).

Este patrimônio da humanidade é proveniente, em grande parte, de Portugal, Espanha, França Itália, Eslovênia, Croácia, Romênia, Bulgária, Hungria, Grécia, Turquia, Geórgia e Ucrânia.

Apesar de tentar, não consegui obter os dados mundiais, mas posso afirmar que na Itália a vitis vinifera é cultivada em aproximadamente 640.000 hectares, hectares que pertencem a 205.128 viticultores e o vinho, ali produzido (54.000.000 de hectolitros), é comercializado por 40.000 engarrafadores.

Belos números, concordam?
 

Imaginem, então, estes números somados aos de todos os países produtores espalhados pelo mundo...

É muito difícil acreditar, então, que alguém possa responder a todas as perguntas sobre todos os vinhos, quais as combinações gastronômicas mais adequadas, qual a temperatura certa, qual a melhor safra, qual o tempo de guarda, qual a taça, quantas vezes é necessários cheirar, fazer cara de entendido, mesmo não tendo entendido merda nenhuma e...... por aí vai

Por mais que se use o Google, assim como eu fiz para apresentar as estatísticas, às vezes a vaidade vence e o onisciente acaba acreditando em sua infalibilidade.

 

Apostando na desinformação dos ouvintes, o onisciente acaba cometendo erros risíveis.

Apontei, em matéria anterior, dois erros crassos que não foram corrigidos na programação da CBN.

Mais um agora: "..... o Piemonte não é só Barolo e Barbaresco.... A porta de entrada, para Barolo e Barbaresco, seria o Nebbiolo que pode ser até da região do Barolo e Barbaresco, mas eles usam vinhas mais jovens...."

Esta é uma cagada homérica!
 

Quer dizer que quando a vinha é jovem produz vinho Nebbiolo e quando a parreira envelhece nos presenteia com Barolo e Barbaresco?

A idade das vinhas determina a denominação?

Nada a ver, então, com exposição solar, altitude, composição do solo?

Traduzo parte do disciplinar do Barolo

2. As condições de cultura dos vinhedos devem ter os requisitos expostos a seguir.

 Terrenos: argilosos, calcários e suas eventuais combinações.

Localização: Exclusivamente colinar; são excluídos categoricamente os terrenos de fundo de vale, úmidos, planos e não suficientemente ensolarados.

Altitude: Não inferior a 170 metros e não superior a 540 metros.

Exposição solar: Adequada para assegurar uma maturação idônea para conferir às uvas e ao vinho derivado, especificas características de qualidade, mas excluindo vinhas implantadas na posição norte de -45° a + 45°.

Se um comentarista italiano fizesse a mesma afirmação do Lucki, sobre o Nebbiolo, seria ridicularizado e nunca mais comentaria vinhos.
 

Erros crassos, ridículos, dispensáveis.

O Nebbiolo será sempre Nebbiolo, independentemente da idade das vinhas, quando e se plantado fora dos requisitos estabelecidos pelas DOCG "Barolo" e "Barbaresco"

Mais uma coisa: Não é somente o Nebbiolo "..... que pode ser até da região do Barolo e Barbaresco".

 Na mesmíssima região do Barolo e Barbaresco há um mar de vinhas de Barbera, Dolcetto, Freisa, Chardonnay, Moscato.....

São castas que, pela mesmíssima razão do Nebbiolo, são implantadas onde não é permitido o cultivo do "Nebbiolo da Barolo e Barbaresco".
 

Será que o Lucki acha que os viticultores das Langhe são tontos ao ponto de plantar Barbera, que vale 2 Euros ao litro, em terrenos onde poderiam cultivar "Nebbiolo da Barolo e Barbaresco" que é vendido por 10 Euros ao Litro?

Dionísio.
 

Ps. Não vou comentar as declarações sobre o Barbera por falta de papel higiênico

domingo, 6 de novembro de 2016

MAURO SEBASTE II



 


A acolhedora sala de degustação, da Mauro Sebaste, é um exemplo de como um produtor inteligente pode aproveitar um pequeno espaço para conseguir um belo marketing.

A cordialidade, disponibilidade em abrir, sem economia, garrafas e mais garrafas, didáticas explicações, zero pressa, etc. etc. "obrigam" os empolgados visitantes a aumentar, sensivelmente, os números das compras.

Mauro Sebaste, já na primeira taça, se fez presente e ajudou Andrea na condução da degustação, degustação em que os alemães bebiam tudo o que lhes era oferecido.


Arneis, Viognier, Barbera, Dolcetto, Barolo...... Nada era recusado.

O meu interesse era mais restrito e minha "sede" mais modesta.... Estava mais interessado em bater um papo com Sebaste do que encher a cara.

Mauro Sebaste tem um charme discreto, fala mansa e uma honestidade intelectual que atrai o interlocutor e provoca imediata empatia.

Mauro é um dos mais honestos viticultores que já conheci: reconhece acerto e erros, também.

Nosso papo começou com a Freisa.
 

Para quem ainda não sabe, eu sou um amante incondicional da Freisa que infelizmente, depois de um glorioso passado, vive, injustamente, dias de ostracismo e quase abandono.

"Não adianta..... Todos querem Barolo e mais Barolo. Eu não estou me queixando, até porque o Barolo tem um valor agregado maior, e eu o produzo. Quando minha mãe ainda vivia nos produzíamos, anualmente, 15.000 garrafas. Hoje faço 2.000 garrafas um ano sim e outro não. Aqui na região todos vinificavam a Freisa hoje apenas Rinaldi, Vajra, Brezza, Voerzio, Cavallotto, nós e mais uma meia dúzia ainda tem coragem de produzir"

Os dias de gloria da Freisa, já eram....
 
 

Gentilmente recusei o Arneis, vinho que me agradava nos anos 1980 e que já não suporto (um dia ainda vou escrever uma matéria sobre o assunto), e pedi para provar o Viognier.

O Viognier é a mais nova paixão de Mauro Sebaste.

Continuo não entendendo a mania, dos viticultores da região, em implantar castas brancas, ainda mais francesas, em um território dominado por grandes tintos (os Chardonnay, locais, "fanno cagare").

Mauro deve ter captado sinais de um mercado promissor para o Viognier ou está complementando sua linha de produtos.

Sebaste, que produz e exporta o Gavi, quer tentar emplacar mais um branco para o mercado externo.
 

Com um belo nariz, que revela flores e frutas, o Viognier de Mauro foi uma agradável surpresa olfativa, mas na boca não alcança a complexidade e opulenta untuosidade de seu primo de Condrieu.

Muito jovem (2015) precisará de, pelo menos, mais dois anos para ser avaliado corretamente.

Enquanto os alemães que a cada copo se tornavam mais estridentes e risonhos e não recusavam uma taça sequer, eu focava minhas atenções às Barbera e aos Barolo de Mauro Sebaste.
 

"Estou morto de cansado e apenas ontem terminei a vindima"

Sebaste comentava o trabalhoso final da safra 2016.

Aproveitei a deixa e indaguei sobre a qualidade das uvas.

"A safra foi ótima, as uvas revelam de alta qualidade, mas estou com um problema: excesso de álcool. Para que você tenha uma idéia, as Barbera estão com 16,5° e não sei o que vai acontecer".

Comentei que 16,5° era gradação de Amarone e indaguei se ele não poderia adicionar um pouco de água para diminuí-la para 14,5°.
 

"Não, nunca usaria este expediente, até porque, adicionando água, a quantidade de garrafa aumentaria consideravelmente e a fiscalização da DOC perceberia facilmente a diferença quantitativa. Meu enólogo consultor está com o mesmo problema em outra vinícola na Maremma e está tentando encontrar uma solução para o problema. Se e quando a encontrar vai aplicá-la à minha Barbera"

Não sei qual o caminho que o consultor percorrerá para encontrar a solução, mas, na próxima visita à Mauro Sebaste, o assunto voltará à baila.

De qualquer forma a lei permite declarar, na etiqueta, uma gradação menor em até 0,8°.

Com as mudanças climáticas, creio, já não seja necessário desbastar em demasia (ha produtores que deixam um único cacho para cada parreira) e esperar a super maturação das uvas (as uvas Barbera, de Mauro , quando colhidas, superavam os 22 graus Babo)
 

O mercado já não é seduzido por altas alcoolicidade e prefere beber vinhos mais leves, frescos e jovens.

Eu, por exemplo, quando encontro uma garrafa ostentando 12° na etiqueta já me sinto inclinado a comprá-la.

Quando são declarados 15° não compro nem sob tortura.
Continua.....
Bacco


quinta-feira, 3 de novembro de 2016

MAURO SEBASTE



 


O interesse, de Mauro Sebaste, em se tornar amigo de B&B, no Facebook, aguçou minha curiosidade em descobrir algo mais sobre a vinícola homônima.

Recorri, como de costume, a um amigo comum, Massimo Bergamin, proprietário da trattoria "Dai Bercau", para obter informações sobre Sebaste e seus vinhos.
 

"Produtor sério, tradicional, que vinifica com muita paixão e dedicação".
 
 
 

As palavras de Massimo me convenceram e sem mais delongas telefonei para agendar uma visita.

"Amanhã às 10 horas há um grupo de quatro alemães (como alemão gosta de Barolo....) se não se importar podemos incluí-lo na visita".

Agradeci, confirmei presença e no dia seguinte, no horário combinado, estacionava meu carro no quintal da "Cantina Mauro Sebaste".


"Os alemães ainda não chegaram, mas não devem tardar. O Mauro está trabalhando na adega, mas na hora da degustação estará presente".

Andrea, jovem enólogo, em poucas palavras comunicou que ele seria nosso acompanhante e que Sebaste estava atarefado na adega, mas comandaria a prova de seus vinhos.

Os alemães chegaram!

Apertos de mãos, sorrisos, animação e lá fomos, nós,  conhecer a vinícola Mauro Sebaste.

Pequena, mas muito organizada, a vinícola é um exemplo de limpeza e modernidade.

 

Andrea respondia às perguntas dos alemães em perfeito inglês e às minhas, em italiano.

Na adega de Mauro Sebaste o moderno e o tradicional convivem harmoniosamente.

Máquinas moderníssimas ajudam na vinificação que é realizada com métodos rigorosamente tradicionais (barrique zero).

Chamaram minha atenção os tanques de inox com fundo cônico.

Andrea respondeu à minha pergunta: "O fundo cônico permite retirar mais facilmente resíduos indesejados através de uma pequena torneira. Neste caso, e destes tanques, estamos retirando sementes de uva para evitar o excesso de taninos".

 

É a tecnologia judando a enologia......

Há idiotas que, demonizando o moderno, querem voltar ao passado e pisar cachos com os pés......

 

Esta demonização da tecnologia me faz lembrar Itamar Franco quando pediu a volta do "fusquinha"......

Outra máquina moderna e interessante, que chamou minha atenção, foi a engarrafadora.

Um dos inimigos do vinho é o ar.

A Mauro Sebaste investiu, não pouco, num sistema em que a delicada operação de engarrafamento seja efetuada sem a mínima presença do ar desde o tanque, passando pela tubulação e até o arrolhamento da garrafa.

 O ar é retirado do tanque e dos tubos mediante a adição de azoto.

 

"É necessário tamanho cuidado para uma operação que pode durar apenas poucas horas?"

A minha indagação fez Andrea sorrir.

"Imagine que, por uma razão qualquer, eu deva suspender o engarrafamento quando ainda tenho metade do vinho neste tanque. O prolongado contato com o ar poderia deixar o vinho sem proteção o que seria extremamente perigoso. Nosso cuidado com o ar não se limita ao tanque. Na hora do engarrafamento a máquina introduz azoto na garrafa, retira todo o ar e até antes do sigilo o azoto entra em cena eliminando o ar presente entre o vinho e a rolha. Não há possibilidade de oxidação prematura. Investimos muito no sistema, mas estamos satisfeitos ".

A explicação me convenceu e fiquei pensando o quanto os antigos produtores deveriam penar com os rudimentares sistemas de então.

A tecnologia , quando bem empregada, ajuda a enologia.

A presença maciça de "tonneau" me surpreendeu e originou mais uma pergunta: "Não vejo barriques e nem tonéis de grandes proporções. Vocês usam somente tonneaux?"

 

"Usamos muito os tonneaux um função de nossa pequena produção. O Barolo Ghè, por exemplo, é produzido em pequena escala e tonéis maiores seriam demasiado grandes. Chegamos à conclusão que os tonneaux de 400 litros eram os ideais para nossas necessidades. Usamos alguns tonéis, de maior litragem, para os vinhos que vinificamos em maiores quantidades".

A visita, à parte produtiva, terminou na adega das antigas garrafas.

Ali estavam expostas as etiquetas que fizeram a história da Mauro Sebaste.

Enquanto os alemães se extasiavam com garrafas de antigas safras de Barolo, eu admirava uma empoeirada etiqueta de Freisa.

A Freisa, vinificada pela mãe de Mauro, Sylla Sebaste, era a garrafa 3746 de 9500 produzidas.

 

"Vocês ainda produzem Freisa?"

"Sim! Mauro a vinifica em homenagem à memória de sua mãe que era uma fã incondicional da Freisa".

Terminado giro pela adega, chegara à hora da degustação.

Continua

Bacco