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quarta-feira, 28 de outubro de 2015

ANTICA MERIDIANA RELAIS ART



O Piemonte, no outono, adquire matizes raros e explode em cores impressionantes.






Aproveitando o convite de Massimo Martinelli, para secar algumas garrafas, no domingo, exatamente ao meio dia estacionava o carro no quintal de sua residência.


Já havia brindado meus olhos com panoramas incríveis pela sinuosa estrada de Montezemolo, mas o agro turismo, "ANTICA MERIDIANA RELAIS ART", de Angioletta e Massimo Martinelli, em Vicoforte, é hors concours.


Não Conheço nenhuma paisagem mais bela e sugestiva do que aquela que se descortina da "ANTICA MERIDIANA RELAIS ART".



Com os Alpes ao fundo, cercados pelas vinhas de Dolcetto da propriedade, o "ANTICA MERIDIANA RELAIS ART" merece uma visita (várias, se possível...)



Enquanto você não for até lá, fisicamente, curta algumas fotos do local


Via Montex, 1, 12080 Vicoforte CN
Telefone:0174 563364


Bacco

terça-feira, 27 de outubro de 2015

PINOT NOIR ITALIANO I



Houve um tempo ,quando comecei a escrever sobre vinhos, em que acreditei poder elevar o nível da crítica brasileira relatando minhas experiências.



Hoje me sinto um abobalhado e maltrapilho Don Quixote das taças tupiniquins.

A crítica nacional continua amadora, ridícula e dominada por um pequeno exército de aproveitadores e frequentadores de bocas-livres patrocinadas por vinícolas e importadoras.

Não conheço críticos piores e despreparados do que os brasileiros.
Exagero?

Imagine, por um segundo, o Edward "I Don't Speak English" Motta crítico de vinhos de uma das mais importantes revistas européias.


Imagine, sem morrer de tanto rir, o bufão Didu Bilu Tetéia conseguir patrocínio, de alguma vinícola européia, para comentar vinhos em seu "Blog-Blefe".

Impossível, inimaginável?



Não, não é!

 Um, dos "expoentes" de nossa critica vinícola, já navegou (ainda navega?) pelas paginas da "VEJA".

  O outro ganha dezenas de gravatinhas borboleta para elogiar qualquer vinho importado pela Expand.

Os patéticos personagens, mencionados, são apenas dois palhaços do imenso circo da crítica vinícola brasileira.


Voltemos ao vinho e à seriedade.

Como disse, eu acreditava na necessidade de levar aos enófilos brasileiros informações corretas, honestas e que somente visitando as regiões vinícolas seria possível escrever e comentar, com segurança, os vinhos lá produzidos.

Piemonte, Toscana, Veneto, Marche, Liguria, Emilia Romagna, Lombardia, Úmbria, Friuli-Venezia Giulia, sem falar da Borgonha, Alsácia etc. foram, várias vezes, minhas metas vinícolas preferidas.
Em minhas "vagabundagens etílicas" nunca pensara, todavia, no Trentino-Alto Adige.

 Comecei a me interessar, por aquela região, quando os comentários elogiando os Pinot Noir produzidos na província de Bolzano, se tornaram mais constantes, insistentes.



"Ótimos, Maravilhosos, Grandes"! Eram alguns dos adjetivos mais comuns que chegavam aos meus ouvidos quando alguém comentava os Pinot Noir produzidos na belíssima região italiana.

Para me familiarizar e tirar dúvidas provei alguns.

 Gostei, mas não me entusiasmei e fui deixando para segundo plano o mais badalado Pinot Noir italiano.

Um belo dia, visitando a linda Soave, à procura de algumas boas garrafas de Garganega, pensei: "Em uma hora e meia posso alcançar Egna e experimentar, na fonte, os renomados Pinot Noir "altoatesini".



Sem mais delongas peguei a autoestrada e antes do jantar já estava hospedado no bom "Hotel Andreas Hofer" em Egna.

Egna (Neumarkt em alemão, primeira língua local), pouco mais de 5.000 habitantes, limpa, ordenada, charmosa, tranquila.

O que mais?

Ah, sim.... Fontes de água potável em todos os cantos e belos pórticos medievais.


 Os pórticos, naquela noite de intensa neblina, luz difusa e de impressionante silêncio, pareciam cenário perfeito para um filme de terror.
Ia esquecendo... Um frio paralisante.

Caminhando rapidamente, para não congelar, encontrei, bem no centro da vila, um restaurante (já escrevi sobre o assunto) de se tirar o chapéu: "Jonhson & Dipoli".


O local é tocado pelo incrível Enzo De Gasperi.

 Imagine uma vila medieval, você caminhando sob pórticos assimétricos e mal iluminados, uma assustadora e espessa neblina, nem uma viva alma por perto e apenas o som de seus passos e de sua respiração....

Se não fosse ateu, acreditasse mortos-vivos, fantasmas ou vampiros, teria voltado apavorado para o hotel.


Quando já não esperava nada de especial, a não ser uma prosaica pizzeria, bem no final dos pórticos um belo e acolhedor restaurante parecia me convidar. 

Entrei.



Belo bar, pequenas salas minuciosamente decoradas, ambiente "vintage", muito calor, simpatia e uma carta de vinhos impressionante.

 Grande variedade (Itália e França em primeiro lugar), etiquetas prestigiosas, garrafas raras e caras, safras antigas, que Enzo, o proprietário, sem cerimônia, abria e servia em taças de finíssimo cristal.



Não pense no Real, esqueça o câmbio por uma noite e deixe Enzo seduzir seu paladar e..... estuprar seu cartão.

Sim o Jonhson & Dipoli é caro , mas creia , vale a pena! 

Antes do jantar resolvi beber um espumante.

Consultei a lista do quadro-negro e escolhi, sem muita delonga, um "terceiro melhor espumante do mundo" (o segundo é o gaucho) e pedi uma taça de "Haderburg Pas Dosè".



"Ótimo espumante! Um dos melhores da Itália".

Meu comentário provocou risos e Enzo replicou "Ainda bem que você elogiou..... Olha o tamanho do produtor".

Olhei para o "alemão" que estava bebericando em uma mesa próxima e tive que concordar: O homem, gigantesco, tinha mãos que pareciam duas retro escavadeiras....  

Cin-Cin, bom papo, algumas risadas, várias dicas e. perdi a conta de quantas taças inclusive de Pinot Noir.

Depois do jantar, com todas as indicações, que necessitava para o dia seguinte e "protegido" pelas generosas taças de vinho que multiplicaram minha valentia, enfrentei, claudicante, mas valoroso, frio , neblina , fantasma, vampiros e outros perigos.




Em poucos minutos cheguei, são e salvo, ao Hotel.

Bacco

Próxima matéria: As colinas do Pinot Noir.



sexta-feira, 23 de outubro de 2015

ENÓLOGO III



Peço permissão para continuar a série "ENÓLOGO" bem no dia dedicado aos profissionais de vinhos e vinhas.



Tomei a decisão de continuar e desmitificar os "viticultores artesanais" ao ler comentários que os pequenos produtores teriam menores possibilidades financeiras e conhecimentos para conseguir produzir vinhos manipulados quimicamente.

Sinto muito, mas vou jogar um balde de água gelada sobre os que defendem e acreditam na "pureza" dos pequenos viticultores.

Se o pequeno produtor é honesto, correto, sério (a grande maioria) sabe que, em longo prazo, não é um bom negócio trapacear, mas se tem índole picareta, sai debaixo (um grande exemplo da categoria, "índole picareta", é o Dani Elle).


Ha inúmeros casos de pequenos e picaretas: A Dessilani, vinícola centenária, falsificou milhões de garrafas de Amarone foi processada e faliu.

A Casanova di Neri falsificou seu Brunello e teve que rebaixá-lo para Rosso di Montalcino.

Incontáveis Chianti foram falsificados e até hoje a denominação não recuperou o antigo prestigio.


Estou enumerando apenas alguns casos italianos, mas se fosse me aprofundar e buscar falcatruas em outros cantos do planeta levaria uma semana escrevendo sem esgotar o assunto.

Se o amigo ainda não sabe onde nossos caros e virtuosos enólogos buscam a inspiração para realizar suas "obras" vá ao Google e busque os nos sites da ENARTIS, VASON, EVERINTEC, HTS LAFFORD, DSM (há mais, mas estas são suficientes...)



Vai cair da cadeira e começar a tremer ao perceber o que há de produtos à disposição das vinícolas e viticultores.

Ha de tudo: enzimas, leveduras selecionadas, taninos, chips, bactérias maloláticas, clarificantes, estabilizantes e muito mais.


Gostaria, mas é impossível, traduzir tudo, todavia o italiano é língua bastante compreensível e o leitor atento não terá dificuldade em desvendar a "selva escura".

Entre num site, de qualquer empresa que elenquei (o da ENARTIS é ótimo...) e leia o que um enólogo tem à disposição para manipular os vinhos.




É assustador!

O enólogo dispõe de uma quantidade de produtos, tão diversificados, que não precisaria nem de um cacho de uva para fazer vinho.

Para os nossos "sommerdiers", que adoram encontrar "frutas maduras, mirtilos, framboesas, frutas negras, flores brancas, cacau, cítricos, ameixa etc." em uma simples taça de vinho, recomendo uma consulta em "tannini" (taninos) da ENARTIS.

Para os que, ainda, acham que o enólogo é um semideus recomendo clicar em "prodotti" e em seguida "assistente enólogo".

Os profissionais do vinho podem "brincar" com uma enorme quantidade de "produtos" permitidos e legais para realizar e nos empurrar zurrapas inomináveis


Qualquer semelhança com produtores gaúchos, não é mera coincidência......
Lembra aquele industrial, sócio do Galvão "Brunello Pornô" Bueno, que volta e meia "importa" o francês Rolando Lero, rei da micro oxigenação, para realizar "jóias" como o "Seisavemaria" e "Calote 43"?

Pois é.... O Rolando Lero com sua mala de taninos  e outras "cositas mas"  pode criar qualquer coisa que ordenem..... basta pagar.

Para terminar escolhi, entre centenas, algumas pérolas no catálogo da ENARTIS

1ª em "assistente enólogo" cliquei em "gusto" e apareceu o
PLANTIS AF-1.



 O que é o PLANTIS AF-1?

Leia a tradução.

COMPOSIÇÃO - Proteína pura de batatas, sem substâncias alergênicas;
CARACTÉRISTICAS GERAIS: O PLANTIS AF-1 e um novo produto da linha "ALLERGEN FREE" da Enartis, composto inteiramente da proteína de batatas. O PLANTIS AF-1 não possui compostos alergênicos e, portanto, isento de constar na etiqueta do vinho. A ausência de produtos animais é recomendada na produção de vinhos destinados aos consumidores vegetarianos e veganos.

Vejam a indústria garantindo que na etiqueta não constará a química adicionada ao vinho e se preocupando com o mercado dos novos consumidores veganos.


Mais um produto?


A ENARTIS lança um produto: "INCANTO FRENCH"

O "INCANTO FRENCH" é acondicionado em sacos de 5 quilos com "chips" de madeira que, se e quando, mergulhados no vinho , como se fossem saquinhos de chá, doam ao produto.... Leia a tradução.

O "INCANTO FRENCH", chips de carvalho francês, medianamente tostado, enriquecem o vinho com aromas de baunilha, caramelo, especiarias e tostado. Ao paladar conferem volume, amplitude e uma prazerosa sensação adocicada. 

Os nossos "sommerdiers, ratazanas frequentadoras de "bocas- livres", patrocinadas por produtores e importadoras, por não possuírem repertório vinícola extenso e válido, jamais poderiam distinguir um vinho "fabricado" na adega de um vinho-vinho.

 Nossos "sommerdiers", que não distinguem um Barbera de um Malbec, continuam impingindo aos pobres enófilos um monte de vinhos "construídos" nas adegas pelos nossos heróicos "ENÓLOGO-ENARTIS".


Querem mais?

É só pedir e escrevo mais duas matérias que transformarão os enófilos em fãs da "51"



Dionísio

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

CHASSAGNE-MONTRACHET MORGEOT



Nunca dei muita bola para os tintos da Côte de Beaune, em contrapartida, sempre e solenemente, desprezei os brancos da Côte de Nuits.

Puro preconceito, especialmente, com os tintos da Côte de Beaune.



Sei que há ótimos vinhos tintos em Pommard, Aloxe-Corton, Santenay, Volnay, Savigny-lès-Beaune etc., mas minhas preferências, nesta região (Côte de Beaune), sempre foram os excepcionais brancos ali produzidos.





Há, todavia e sempre, um momento ou um fato que nos obriga a repensar e mudar conceitos.

Os amigos, que ainda conseguem me acompanhar, já perceberam que eu não dou notas, pontos e nem me aprofundo em analises técnicas.

Há um motivo: Eu gosto de narrar o vinho.

 Para mim o vinho tem que ter uma historinha, uma narrativa, onde eu possa transmitir, ao leitor, como encontrei, quem indicou, onde bebi , se gostei , se odiei e quanto paguei esta ou aquela garrafa.

Não consigo imaginar alguém degustando 5.000, 6.000,7. 000, 12.0000  vinhos  e depois  comentá-los  (como consegue lembrar....),  julgá-los e pontuá-los usando uma escala  de 1 a 100.





Considero que a quantidade excessiva seja inútil, desnecessária e a pontuação uma palhaçada.

Vinho deve ter história!

Vamos à nossa historinha.

Em minha última passagem pela Borgonha, em companhia de meu filho, como de costume me hospedei no B&B da amiga Maria Adão.

Maria, elétrica e sorridente portuguesa, radicada ha décadas em Puligny-Montrachet, é uma das minhas fontes de informação na região.



Certo dia, no café da manhã, comentei que meu filho queria comprar algumas garrafas de Bâtard-Montrachet, mas não estava conseguindo encontrar um produtor que não o esfolasse.

"Tenho uma amiga, também portuguesa, casada com o produtor Ramonet de Chassagne. Ela sempre me vende algumas garrafas por preços razoáveis. Vou telefonar e mais tarde lhe falo se consegui o Bâtard por um bom preço".

Maria nunca falha!

Quando voltei, no final da tarde, Maria me entregou duas garrafas de Bâtard por um preço mais que razoável.

"Não consegui mais, mas minha amiga prometeu que na próxima safra vai vender quatro. Ela mandou esta garrafa de tinto para você saber que não ha só brancos em Chassagne".

Já escrevi, mas sempre é bom lembrar: Antes dos anos 1980, 80%%, dos 316 hectares dos vinhedos de Chassagne-Montrachet, eram de Pinot Noir.




Os viticultores perceberam que os brancos, das vizinhas Puligny e Meursault, vendiam mais e alcançavam preços muito mais altos do que os tintos de Chassagne.

Não tiveram duvidas: Extirparam as parreiras de Pinot Noir e plantaram Chardonnay.

Hoje as vinhas de Pinot Noir cobrem menos de 50% do território.



Confesso que raríssimas vezes provei os tintos de Chassagne e nunca me passou pela cabeça comprar uma única garrafa de Pinot Noir de Chassagne.
Sou um enófilo tonto e preconceituoso.

A garrafa, presenteada, permaneceu, quase dois meses, esquecida em minha adega de Santa Margherita.

Semana passada, dia frio, chuvoso, tipicamente outonal, pedia um tinto.

Abri o pequeno móvel, que eu chamo "adega" e vi o Chassagne-Montrachet Premier Cru "Morgeot" 2012 que pedia para ser aberto.

Naquela ocasião não desejava beber nada importante.

Não desejava um Barolo, Barbaresco, Brunello, Taurasi..... queria um vinho jovem, simples e fácil de beber.

Se mais delongas abri o Chassagne-Montrachet Premier Cru "Morgeot".
 Como sempre faço, quase mecanicamente, levei a taça ao nariz e...  Juro que quase caí sentado.



Eu desejava um vinho simples, fácil de beber, jovem, mas o Chassagne-Montrachet, que estava em minha taça, não era nada disso.

O Chassagne Montrachet Premier Cru "Morgeot" 2012 exalava aromas impressionantes, importantes, de grande complexidade e, longe de ser um vinho simples e fácil de beber, se apresentava como um grande vinho.

Aquele Chassagne-Montrachet era um dos melhores Pinot Noir já provados nos últimos tempos.

Se o Chassagne-Montrachet havia surpreendido meu nariz, na boca fez a festa e venceu minhas últimas resistências: Já não podia considerar os tintos da Côte de Beaune inferiores aos primos da vizinha Côte de Nuits.
Quem acompanha minhas críticas sabe perfeitamente que não exagero nos elogios quando encontro um vinho excepcional.


O Pinot Noir, dos Ramonet, é um vinho excepcional e que nada deve aos premiados Grands Crus da vizinha Côte de Nuits.

Quem não acreditar , quando tiver a oportunidade de conseguir algumas garrafas , prove o Chassagne-Montrachet "Morgeot" e depois me escreva.

Mais algumas considerações.....


 Não vou escrever que encontrei "frutas negras, compota de ameixas, framboesas, mirtilos, taninos domados e redondos, longa persistência" e outras bobagens, mas desejo salientar duas coisas:

1ª Bebendo, já com o devido respeito, o Chassagne-Montrachet Premier Cru "Morgeot" 2012, mais uma vez constatei o quanto os franceses são mestres no bom uso da barrique.




Enquanto os americanos, italianos, portugueses, chilenos, argentinos, australianos etc., quando usam a barrique, produzem madeira suco de madeira que chamam de vinho, os franceses, vinificando com a barrique, produzem vinhos com gosto de vinho.

Os franceses usam a madeira, sim, mas com tamanha maestria e inteligência que seus vinhos adquirem elegância e classe inigualáveis sem que a madeira seja agressivamente percebida.



 Os inimitáveis "vignerons" gauleses deixam, para os pobres imitadores, a eterna frustração da incompetência.

2ª Fui bebendo, o Chassagne-Montrachet Premier Cru "Morgeot" 2012, ao longo de vários dias.

Em nenhum momento o vinho deu sinais de "cansaço", oxidação e não perdeu nenhuma de suas principais características.

No quinto e ultimo dia, bebendo o derradeiro copo, me deu uma vontade louca de botar o carro na estrada e rumar até Chassagne-Montrachet.

Não deu ,mas......


Bacco




segunda-feira, 12 de outubro de 2015

ENÓLOGO II




Quem leu "A CAUSA" percebeu o que um(a) enólogo(a) pode fazer com a pobre uva.

A Monica Rossetti, funcionaria da Lídio Carraro , produziu o "FACES" e, pasmem, se orgulha disso.

Se eu tivesse realizado tamanha porcaria teria vergonha, mas nem todos possuem o mesmo espírito crítico...

Apesar de o senhor Catena, inocentemente (será), assumir uma postura de "Pangloss das Uvas", os enólogos, que produzem vinhos perfumados, nem sempre cheiram bem...



Todos sabem o que eu acho de concursos, medalhas, prêmios, pontos e todas as outras palhaçadas que pululam no, nem sempre ético, mundo dos vinhos.

Falsificações, picaretagens e mentiras, há aos montes.

Se fosse escrever sobre todas as falsificações, picaretagens, mentiras, safadezas etc. que conheço e que rodeiam o mundo do vinho, em 2020 estaria ainda no cabeçalho....

As maiores palhaçadas se originam nos concursos.




 A maior delas, para mim, foi aquela de 1976, em que vinhos californianos ganharam uma disputa com os primos franceses.

 Os americanos, como de costume e para enaltecer o "american way of life", realizaram um filmeco adocicado e previsível, sobre o assunto: "O Desafio de Paris".

Desde sempre o vinho francês é o paradigma a ser seguido e, se possível, superado.

Seguir os franceses é fácil.

 A quantidade de países que cultivam, em seus territórios, castas francesas é significativo, mas, se a França é o modelo preferido de 11 de cada 10 viticultores do novo mundo, os vinhos afrancesados não conseguem atingir, nem em sonho, a qualidade dos originais.





Para os viticultores do velho mundo não bastavam as centenas e centenas de casta autóctones à disposição.

 Foram buscar no Chardonnay, Cabernet, Merlot, Petit Verdot, Sauvignon etc. os vinhos que deveriam conquistar os paladares "internacionais".

Ridículos imitadores e ridículos resultados.

Quando Bacco afirma: "... se um Chardonnay é tão bom o melhor do que o francês, é francês".

O mesmo pode ser aplicado às outras castas.

Tô enchendo o saco? Tô repetitivo?

Vou continuar repetindo e enchendo o saco daqueles que, como Bernardo, acreditam na "pureza" de muitos enólogos e na seriedade de muitíssimas vinícolas.


O CONCURSO

O Friuli Venezia Giulia, região italiana mais oriental do norte da Itália, é pátria de inúmeras e importantes castas: Picolit (será que ainda existe o verdadeiro Picolit?), Ribolla Gialla, Schioppettino, Refosco dal Peduncolo Rosso, Malvasia Istriana, Tocai Friulano, só para citar as mais importantes.

As dezenas de uva auroctones não eram suficientes.

Era preciso importar Merlot, Cabernet Sauvignon, Chardonnay, Malbec, Petit Verdot e, especialmente, o Sauvignon.

Todas as castas francesas/friulanas são apenas, como sempre, coadjuvantes no desafinado coro dos vinhos internacionais e ninguém as conhece ou procura.

O "Sauvignon Friulano" era mais pretensioso.

 O "Sauvignon Friulano" sonhava alto e queria ser melhor do que os primos do Vale da Loira.




 Conseguiu!

Na 5º edição (2014) do "Concurso Mundial do Sauvignon", realizado em Bordeaux, o "TIARE", produzido por Roberto Snidarcig. em Dolegna Del Collio, competindo com 751 vinhos de 21 países, ganhou a medalha de ouro e um troféu especial de melhor Sauvignon do planeta.

Os italianos, ao lado dos americanos, podem, agora, se orgulhar de ter ofuscado os franceses.
Em 1976 os americanos (sempre eles.....) em Paris humilharam os franceses e em 2014 os friulanos acabaram com os primos de Sancerre e vizinhança.
Será?

Em 1976 os controles eram não tão rigorosos, eficientes, assim, a esperteza de Spurrier (o que ele aprontou, para ganhar uma grana, ninguém sabe....) não pôde ser contestada.

 Os rigores, hoje, são maiores, as analises mais precisas.

 Se a química ajuda a enganar os consumidores, por outro lado, colabora para desmascarar falcatruas.

Não deu outra: O "melhor Sauvignon do mundo" foi idealizado e construido por um esperto enólogo.


A HISTÓRIA

Ramon Persello, jovem consultor enológico e gênio da química, há anos trabalhava tentando descobrir uma "poção mágica" que conseguisse melhorar os aromas e gosto de seus vinhos.




Suas experiências, que deveriam ficar reclusas, na moita em seu laboratório, aos poucos foram parar nos mostos de várias vinícolas da região (17).

A "poção mágica" de Persello atingiu a perfeição no "TIARE", de Roberto Snidarcig que foi considerado o melhor Sauvignon do mundo (os críticos, como sempre, não entendem merda nenhuma).


O milagre?

Persello não descobriu a água quente apenas foi genial na falcatrua: Pegou os precursores dos aromas, as enzimas betas glicosidase e.....voilà, le meilleur Sauvignon du monde.

A lei proíbe, na Europa, a adição de aromas artificiais ao vinho, mas os precursores ligados ao açúcar são inodoros, por isso mesmo legais e podem ser incorporados ao mosto.

O enólogo, Persello, que de "poeta" não tem nada, se aproveitou de um estratagema: Adicionou os precursores de aroma ao mosto e as enzimas beta glicosidase.


As enzimas dissolvem os precursores ligados ao açúcar e liberam os aromas no mosto que se tornam perceptíveis ao olfato.

A genialidade do enológo-químico, Persello, foi encontrar a mistura exata dos aromas que os júris internacionais buscam , desejam e querem premiar.
A sacanagem perfeita, mas é o que acontece muito mais frequentemente do que se possa imaginar.

Imagine, por um instante, o que acontece nas adegas brasileiras....



O que acontece nas aldeias tupiniquins será meu próximo assunto.


Para terminar:

Quem "soprou" a falcatrua?

Como sempre, alguns produtores da região

Viticultores que seguiam, fielmente, o disciplinar do Sauvignon, cansaram de ver os concorrentes acumular prêmios e mais prêmios e faturar alto com suas garrafas.


Foram ao Ministério Público, botaram a boca no trombone e revelaram o "milagre" de tamanha excelência enológica.

 Alguém recorda a falcatrua do "Cabernello di Montalcino"?

Pois é..... A falcatrua continua.

Dionísio.