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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

DENT DE CHIEN II




Puligny e Chassagne: Algumas dicas

Sempre defendi a tese que para falar de um vinho, com seriedade, é preciso conhecer e não apenas superficialmente, a região em que é produzido.

Para comentar o “Dent de Chien” bastaria,então,  minha experiência na “Antica Osteria Del Mosto” , pois     percorri a Cot D’Or dezenas de vezes e não seria  necessária uma nova incursão na Borgonha.

Mas como resistir à Borgonha?

“Comprar algumas garrafas de Dent de Chien” foi essa a desculpa (esfarrapada) que encontrei para enfrentar os 600 km que separam Chiavari de Beaune pela quarta vez somente em 2013.

Há quatro regiões vinícolas que me fascinam : Piemonte , Borgonha, Toscana , Alsácia e não escondo minhas preferências  de ninguém .

Basta um aceno, um convite ou uma boa companhia...

Sem pensar duas vezes entro no carro e..... Viva a Borgonha!

Nada mais gratificante do que reencontrar pessoas, rever locais, vinhas, paisagens e caminhos que literalmente me fascinam.

O “Dent de Chien” foi uma ótima desculpa para rever Julien Wallerand  e Maria Adão em Puligny, Marc e Pierre Antoine em Pierreclos, Julie em Solutrè, Jean Raphet em Morey-Saint-Denis e muitos outros amigos que nem a barreira do idioma consegue distanciar.

Reencontrar os amigos foi fácil, já o “Dent de Chien”......

Normalmente, quando chego à Côte D’Or, me hospedo em Bouze-Les-Beaune ou Puligny-Montrachet.

 Puligny-Montrachet, nessa última viagem, foi a aldeia que escolhi para passar alguns dias e “caçar” o Dent de Chien.

No B&B da Maria Adão já sou de casa.

  Além de graciosa a localização da pousada é invejável: Não há nada mais excitante do que abrir a janela do quarto e quase poder tocar as vinhas de Chardonnay que doam o Puligny-Montrachet.

Após descansar alguns minutos (não se pode perder muito tempo...) basta percorrer uma centena de metros, alcançar o ótimo wine bar “Le Caveau de Puligny Montrachet” para ser recebido com um sorriso e um aperto de mão caloroso do amigo Julien Wallerand e degustar renomadas etiquetas que, sem a menor cerimônia e generosamente, Julien serve em taças de cristal.

Um Puligny? Um Chassagne? Talvez um Mersault ou, quem sabe, um Saint Aubin?

O único problema é a escolha.....

Os grandes vinhos servidos na temperatura exata, em taças decentes (coisa rara na França), e num ambiente de raro aconchego e sofisticação.

 Esparramado em poltronas confortáveis e admirando o monumento aos viticultores, na pequena praça em frente, não tenho duvidas em eleger o “Le Caveau de Puligny Montrachet” como meu bar preferido de toda a Borgonha.

Uma rodada oferecida por Julien, mais uma oferecida por um viticultor amigo (Bzikot), outra mais paga por um colega de Bzikot e finalmente (ainda bem...) uma oferecida por mim.

O ótimo restaurante “Le Pelugney”, por sorte, se localiza a menos de 200 metros da “Le Caveau”.

 Recusando gentilmente mais uma rodada (É a última!! É a última!!) me esforçando para parecer mais sobrio, do que na realidade estava, deixei meus amigos, que continuaram enchendo copos e mais copos (como bebem bem os franceses.....) e caminhei ereto, ma non troppo, para reencontrar Beatrice e Jean Louis no “Le Pelugney”.

“Le Pelugney” é a melhor e mais racional escolha gastronômica em Puligny.

A pior? “La Table de Olivier Leflaive”.

Fuja, mas fuja mesmo: O “La Table” tem forte conotação turística, caríssimo e previsível.

Quase pelo mesmo preço, mas com muito mais requinte, classe e um serviço impecável, opte pelo estrelado “Le Montrachet”.

 

Mais alguns endereços válidos?

 “La Garaudière” em Levernois, “Le Chateau De Cîteaux La Cueillette” em Meursault, “La Bouzerotte” em Bouze-Les-Baune e se tiver com Euro sobrando um 3 estrelas sensacional: “Maison Lameloise” em Chagny.

Para beber, além do excepcional “La Caveau de Puligny Montrachet”, o “66” na Place Cardot.

O  "66”, estrategicamente localizado, abandonou, recentemente, os horrendos copos de vidro, mais apropriados para servir licores e adotou belas taças para servir grande variedade de vinhos tintos e brancos além de várias etiquetas de Champagne.

 "66” é o melhor wine bar de Beaune.

Após beber algumas taças é provável que a fome marque presença.

Se isso acontecer fuja, igual deputado da cassação, do restaurante “Bistrot De L’Hotel”. O “Bistrot” é um local pretensioso, caro e dispensável.

Cansado ,  alegre e andando nao muito firme, voltei para o B&B da Maria Adão decidido em percorrer, na manhã seguinte, os caminhos dos “Grands Crus” até alcançar o “Dent de Chien”.

Até a próxima.

Bacco

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

DENT DE CHIEN



Em umas das minhas viagens pela Borgonha acompanhando o grande amigo Pedro Marques, proprietário da charmosa e ótima Garrafeira Alfaia de Lisboa, fiquei surpreso quando ele perguntou: “Bacco você conhece o Dent de Chien?”.

“Dente de cão? Nunca ouvi falar”.

Pedro confidenciou que um amigo lhe havia revelado e garantido que o “Dent de Chien” era um ótimo Premier Cru, mas muito raro e difícil de encontrar.

Depois da conversa e da dica do Pedro, sempre sem sucesso, comecei a procurar o “Dent de Chien” para comprar ou provar.

Durante um jantar, no ótimo “Lord Nelson”, em que o viticultor Franz Haas apresentava seus nada entusiasmantes vinhos, o amigo e médico Beppe Marini confidenciou: “Semana passada morreu Franco Solari e seus familiares estão liquidando a fabulosa adega da Antica Osteria Del Mosto. Se você quiser comprar alguns brancos raros deve dar um pulo até lá”.
 

Franco Solari era proprietário da “Antica Osteria Del Mosto”, na pequena aldeia de Ne, próxima de Chiavari.

 Ne sempre foi frequentada pelos bons de garfo por sua gastronomia e bons restaurantes.

 Solari era um grande apaixonado por vinhos e na adega de sua trattoria repousavam etiquetas italianas e francesas de grande prestígio.

Meu estoque caseiro  quase sem brancos e  eu não estava, naqueles dias, com disposição para dar um pulo na Borgonha para me reabastecer...

 Resolvi arriscar e almoçar na “Antica Osteria del Mosto em Ne para verificar se a dica de Beppe Marini era válida.

Restaurante simples, familiar, cozinha privilegiando pratos típicos... Uma trattoria igual a milhares de outras que podem ser encontradas em incontáveis aldeias italianas

Pedi a carta de vinhos e fiquei paralisado.

Puligny-Montrachet, Chassagne-Montrachet, Montrachet, Batard-Montrachet, Criots-Batard-Montrachet, Clos-Vougeot, Charmes-Chambertin, Barolo Monfortino, Barbaresco Asili do Giacosa, Chateau Musar, Brunello Soldera, Biondi Santi.....

Dezenas de grandes brancos, uma infinidade de grandes tintos e, pasmem, uma garrafa de “Dent de Chien”.
 

Procurei, sem sucesso, o Dent-de-Chien em dezenas de enotecas de Beaune, Puligny, Chassagne, Mersault, Saint Aubin etc. etc. etc. e acabei encontrando o raríssimo vinho no lugar mais improvável: Na pequena Ne, escondida aldeia da Ligúria.

O almoço não deixou marcas indeléveis, mas o vinho..... 

O vinho, “Dent de Chien” Premier Cru 2005 de Philippe Colin, valeu todos os 50 Euro pagos por ele e reforçou minha ideia de aprofundar meus conhecimentos e minhas experiências sobre a denominação.

Aproveitando o desânimo proveniente da crise que atinge o setor e a necessidade dos proprietários de reduzir o estoque e fazer caixa, após breve negociação algumas garrafas preciosas se transferiram para a minha adega.

Na próxima matéria abordarei minha última viagem pela Borgonha à procura do “Dent de Chien”.

Mais uma coisa: Na pequena Ne (2.300 habitantes) há outra fantástica adega.

No restaurante La Brinca a carta de vinhos conta com mais de 1.000 etiquetas de vários países além de 300 marcas de Cognac, Armagnac, Brandy, Rum, Whisky, Grappa, Licores etc.

 

sábado, 24 de agosto de 2013

Orta San Giulio


(0)(8)


Quando você, após visitar Arona, Angera, Stresa, Isola Bella, Isola dei Pescatori, Pallanza, Cannobbio, Sesto Calende e outras maravilhosas aldeias que cercam e enfeitam o estupendo “Lago Maggiore”, acreditar que seus olhos já não podem agüentar ainda mais beleza é chegada à hora, então, de conhecer o “Lago D’Orta” e Orta San Giulio.

O “Lago D’Orta” é uma pequena pérola pouco conhecida e bem menos badalada do que seu vizinho “Lago Maggiore”,
 mas, nem por isso, menos bonito e interessante.

 
 Sua “capital”, a pequena e estupenda Orta San Giulio, não teme comparações com outra localidade qualquer e não é segunda em nenhuma “disputa” que exija charme, fascínio, encantamento.....

Hotéis?
Muitos e ótimos.
Restaurantes?
Há somente o embaraço da escolha (bem na entrada da cidade, um 2* Michelin)
Enotecas e bares?
Mais de vinte.

 
 
As estruturas abundantes e boas se apequenam e são deixadas de lado, parecendo figurantes insignificantes , quando o turista sensível entra na aldeia ,percorre e se perde no labirinto de suas estreitas ruelas.
O emaranhado de becos, com calçamento secular perfeitamente preservado (asfalto? Zero!), deságua, invariavelmente, na bela e majestosa praça, repletas de bares e de onde partem os barcos para a fantástica e misteriosa “Isola Del Silenzio”.
 
A “Isola del Silenzio”,  pequena ilha no meio do lago ,  hipnotiza os mais insensiveis olhos ; é impossivel deixar de admirar e fotografar inúmeras vezes a beleza do lugar .
 
 

Não há, em toda Orta San Giulio, um canto sequer que beire o trivial, o comum o insosso; Orta San Giulio é charme, encanto total, e seu visual, mais que raro, é único.
 
A região do Lago Maggiore é repleta de surpresas emocionantes, sofisticadas, raras e que nos esperam a cada curva ou esquina.

  É um ângulo do Piemonte que deve ser percorrido com calma e inteligência.

Orta San Giulio exige ainda mais calma e inteligência.

Na entrada, logo após o edifício de estilo “Mourisco Kitsch”, que abriga o hotel e restaurante “Villa Crespi” (duas * Michelin) há uma estrada que serpenteando morro acima leva o turista, religioso ou não, para um dos mais belos “Sacro Monti” da Itália.
 
Os “Sacro Monti” são percursos devocionais compostos por capelas que, através de um discurso iconográfico, constituído de esculturas e pinturas, conta a vida de Cristo, Nossa Senhora ou dos santos.
 

Os “Sacro Monti” nasceram na vizinha Varallo (vale a pena visitar, também) no século XV e aos poucos se espalharam por outras aldeias piemontesas.
 
O “Sacro Monte” de Orta San Giulio, composto de 20 capelas, é dedicado à vida de San Francisco e impressiona pelo realismo das centenas de esculturas barrocas que as decoram.

Percorrer o “Sacro Monte”, no começo do outono, quando as arvores adquirem vários matizes entre o cobre e o dourado , caminhar sobre o espesso tapete de folhas convivendo com um silêncio impressionante é algo, pelo menos para mim, difícil de descrever.
 

É preciso conhecer e viver......

Antes de descer, para Orta San Giulio, não se deve economizar fotos: O panorama que se descortina do alto da colina é, mais que belo, único.

O moderno estacionamento no subsolo, bem na entrada da aldeia, é cômodo, seguro, barato.
 
Uma recomendação: Não caia na tentação de entrar com o carro na pequena Orta San Giulio especialmente se o seu veículo for médio ou grande.

As ruelas são muito estreitas e existe o real perigo de arranhar ou amassar o carrão.
 
Caminhar é preciso.....

Descrever a cidade?
Não tenho o dom de transmitir ou narrar tanto encanto e até as fotos, que anexei nesta matéria, não fazem jus à magia do lugar.
 
Caminhar vagarosamente curtido o traçado medieval da aldeia, admirar os telhados de espessas lajes de granito e suas incontáveis e fumegantes chaminés (faz muito frio na região), olhar incrédulo para os incríveis balcões e portões de ferro batido (verdadeiras obras de arte) é um pouco cansativo.

Após algumas horas de peregrinação é recomendável descansar em um dos muitos bares da praça, ponto central e mundano da cidade.
 
No pequeno porto, botes motorizados fazem a travessia até a “Isola del Silenzio.

 A “Isola del Silenzio”, pequena ilha que aflora na superfície do lago, compõe uma visão quase irreal e deve ser obrigatoriamente visitada.
 
Dois caminhos percorrem a ilhota: “Via del Silenzio” e “Via della Meditazione” e a atmosfera, que imediatamente envolve o turista, explica, por si só, os nomes: silêncio e meditação...... Misticismo puro.
 
E por falar em misticismo, as únicas habitantes da ilha são as freiras enclausuradas no mosteiro que domina a “Isola del Silenzio”

Que mais contar?
Poderia escrever mais dez páginas, falar de centenas de coisas, contar muitas passagens que vivi visitando a aldeia, mas jamais esgotaria o assunto nem poderia dar uma idéia completa da beleza de Orta San Giulio.
 
Para compensar minha falta de talento narrativo gostaria de indicar um restaurante que há anos é o meu preferido.

Há inúmero e bons em Orta San Giulio, mas o “Hotel Ristorante Olina”, bem na ruela principal da aldeia, é insuperável.
 

Atendimento cordial (confie na gerente e sommelier Tiziana), ambiente simples, cozinha primorosa, boa carta de vinhos, preços contidos.....

Quer mais?

Um conselho: Se você é um sujeito normal, não tem uma fome atávica e não gosta de jogar dinheiro pela janela do carro, peça apenas um prato.
 
Não caia em tentação, esqueça a gula: As porções são tão abundantes que é temerário pedir um segundo prato (quase sempre será desperdiçado).
 
Se os convivam forem dois e os antepastos irresistíveis , peça um  e divida com o (a) acompanhante.

Vinhos?

Tiziana normalmente oferece mais de 20 opções em taça e o “Olina” é o local indicado para se degustar bons copos de Gattinara, Boca, Fara, Sizzano, Lessona, Bramaterra e outros vinhos da região.
 

Orta San Giulio, uma aldeia encantada.

Confira.  



sexta-feira, 16 de agosto de 2013

LIGÚRIA PARA POUCOS

Portovenere
Portovenere



































Portovenere


Lerici
















Lerici
chiavari
 
Cinque Terre
Cinque Terre
Chiavari



quarta-feira, 14 de agosto de 2013

JEAN RAPHET




Se os Chardonnay de Marc e Pierre Jambon sempre me “obrigam” a um desvio de rota (Pierreclos não é exatamente meta obrigatória), não é preciso sair da estrada principal para encontrar, em Morey-Saint-Denis, Jean Raphet e seus ótimos Pinot Noir.

Nas matérias anteriores escrevemos sobre um Pinot Noir gaúcho.

 É preciso voltar a falar de vinhos sérios.

 Nada melhor, então, para retornar à seriedade, do que apresentar o viticultor Jean Raphet.

 Com sua personalidade única, sua história e seus grandes Pinot Noir, Jean Raphet é um personagem cativante que representa, com fidelidade, o espírito vinícola da Borgonha.

Mas quem é Jean Raphet?

Quais as razões do meu entusiasmo? 

Jean Raphet, viticultor em Morey-Saint-Denis, é apenas mais um entre centenas de bons produtores da Borgonha que, apesar de vinificar com maestria, não despertaria minha atenção se não fosse sua simpatia, gentileza, simplicidade, filosofia de vida (que se parece muito com a minha) e sua incomum gentileza ao receber.

 Jean Raphet, ao contrario da maioria dos viticultores locais, nunca vendeu todas as suas garrafas.

  Durante décadas e a cada vindima, foi reservando, especialmente nas boas safras, parte de sua produção que aos poucos foi estocando em um canto de sua adega.

  Quando completou 70 anos (hoje está com 76) Jean Raphet atingiu um numero significativo de vinhos armazenados: 40.000 garrafas empoeiradas de Chambertin-Close-de-Bèze, Charmes-Chambertin, Clos-Vougeot, Clos-de-La-Roche, Gevrey-Chambertin Les Combottes, Gevrey-Chambertin Les Corbeaux etc.etc.etc. dormiam no escurinho da adega.

 Era chegada a hora de se aposentar.

Raphet entregou vinhas e vinícola para os filhos, se afastou dos negócios e hoje vive tranquilo, em Morey-Saint-Denis, vendendo, aos poucos, suas 40.000 garrafas de antigas safras aos clientes fieis e aos turistas que nunca faltam na Borgonha.

Na adega de Jean Raphet é possível encontrar garrafas dos anos 70-80-90-2000 todas em perfeita forma e por preços mais que justos (às vezes nem tanto.... É preciso negociar).

Bem no centro de Morey-Saint-Denis, quase em frente ao monumento (em cada aldeia há um...) aos mortos nas guerras de 1915 e 1939, sua residência é facilmente identificável.

Um aviso: Chegue com boa disposição, fígado em dia e muita vontade de beber; Jean Raphet bebe como gente grande.....

“Querem degustar algumas garrafas?”

Com seu inseparável boné, suas roupas desleixadas, olhos vivos e disfarçados por grossas lentes, sorriso maroto, grande disposição pra abrir garrafas, Raphet abre a porta de sua “sala de degustação”.

Charme? Zero

Sofisticação? Zero.

Vinhos? Ótimos.

Garrafas e mais garrafas são abertas sem cerimônia ou economia pelo inquieto Jean que, entre um gole e outro (como bebe o homem...), exclama “Querem provar um Charmes 1990 ou preferem um Clos Vougeot 2001?”.

Raphet é um saca rolha humano!

No final da degustação, visivelmente alegre e com um  sorriso  engessado que não saia de minha face, havia comprado 4 garrafas de Charmes-Chambertin 1989 (60 Euro), 4 de Clos-De-La-Roche 2000 (50 Euro) 2 Clos-Vougeot 2001 (50 Euro) e 2 de Chambertin-Clos-de-Bèze 1991 (150 Euro).

Jean Raphet, quando percebeu que pagaria em dinheiro vivo, não se conteve; abriu mais uma garrafa, desta feita de Bonnes-Mares 1990, que religiosamente e em meia hora esvaziamos e, não escondendo sua já exagerada alegria, me cobrou “apenas” 120 Euro pelas garrafas de Clos-De-Bèze.

Quem passar por Morey-Saint-Denis e não visitar Jean Raphet jamais poderá entender a Borgonha, seus vinhos, seus personagens.

sábado, 10 de agosto de 2013

HABEMUS PINOT NOIR II




RAZÕES

Quando Dionísio me pediu para complementar sua matéria, “Habemus Pinot Noir”, confesso que relutei um pouco.

Dar visibilidade a um marqueteiro esperto, muito esperto, que surgiu do nada e hoje consegue convencer uma pequena legião que ele é um mago dos vinhos e das vinhas, não é exatamente meu grande desejo.

O paparazzo, codinome perfeito que Dionísio, em sua diabólica mente, encontrou, não pode ser levado a sério.

Muita propaganda, muita cara de pau, muita arrogância, muita mentira e.... pouco vinho.

Não provei o Pinot Noir do paparazzo e vou avisando, desde já, que não pretendo provar sua mais recente “obra prima”.

Há alguns anos tive a infelicidade de experimentar outras suas desastrosas e caras etiquetas e não cairei mais em tentação, aliás, declaro, em alto e bom som: Não acredito que no Brasil seja possível produzir um grande Pinot Noir.

Vou além: Não acredito que no Brasil possam aparecer grandes vinhos. Bonzinhos, honestos, razoáveis, sim, mas grandes..... É melhor não se entusiasmar.

Com uma viticultura descontrolada, poucos e gigantescos produtores que dominam o mercado, 80% de vinhos produzidos oriundos de uvas não viníferas, seriedade ausente ou duvidosa, consumo e conhecimento vinícola mais que modestos, chega beirar o ridículo, num cenário como esse, eleger um ex-fotógrafo: Mago do Pinot Noir.

Se você é dado às experiências radicais, insólitas, busca a agulha no palheiro e pode gastar 120 R$ (40 Euro) para comprar o Pinot Noir do paparazzo (como criticar sem ter provado?), confesso que eu não tenho o mais remoto interesse em desembolsar o mesmo valor para, também, experimentar um Pinot Noir indiano, mexicano, chinês, peruano, egípcio etc. etc. etc..

 Deixo este raro e perigoso privilégio aos fãs do paparazzo, acostumados, que estão, às emoções fortes.


NÚMEROS

Vamos analisar alguns números?

Sabe quanto custa um hectare de “Grand Cru” na Borgonha?

Não?

Não tem a mínima ideia?

Tome nota:

“Clos-de-Beze” = entre 10 e 15 milhões de Euro

“Batard-Montrachet” =20 milhões de Euro 

“Montrachet” = chegou a ser negociado, em 2012, por 30 milhões de Euro e. por aí vai(nem vou comentar o preço do La Romanée....)

A esmagadora quantidade das vinícolas da Borgonha é minúscula, familiar há gerações, todos os membros trabalham nas vinhas ou nas adegas, a produção é pequena (20-30 mil garrafas), cuidado na vinificação quase maníaco.

 Esses são os grandes segredos da excelência vinícola da Borgonha.

 Apesar da crise mundial não existem grandes estoques na Côte D’Or e, mesmo com o aumento dos preços, nos últimos anos, é quase impossível encontrar algumas etiquetas ou safras (para comprar 2 garrafas de Montrachet precisei da ajuda de Massimo Martinelli que as conseguiu com se amigo René Lamy em Chassagne-Montrachet).  

Grande procura pelos vinhos de fama mundial causada pela “invasão” brasileira, russa e chinesa dos últimos anos, é um dos fatores que alavancaram os preços das garrafas provenientes dos Grands Crus.

Apesar da “escassez” com um pouco de paciência e algumas pesquisas, 40 ou 50 Euro são suficientes para levar para casa um Charmes-Chambertin, um Clos- De-La-Roche ou um Clos Vougeot de boa qualidade.

Não sei quanto custa um hectare de vinhas no RS, mas não acredito que ultrapasse os 10.000 Euro.

Qual a razão, então, do Fulvia-Paparazzo custar R$ 120 (40 Euro)?

Já imaginou quantos reais, limpinhos, limpinhos, escorrem para os bolsos do nosso esperto paparazzo?

Faça algumas contas e você verá como é fácil lucrar em nosso país especialmente quando alguém percebe que há uma legião de otários à disposição.

Eu não quero ser mais um otário!

QUALIDADE

Clima inadequado, terra quase sempre imprópria, pouco ou nenhum controle desde o plantio até o engarrafamento, quantidade excessiva de uva por hectare, baixíssima remuneração ao viticultor, 80% de videira não viníferas... O melhor dos mundos para os predadores do setor.

Com este cenário babilônico como é possível, então, um Pinot Noir de grande classe no RS?

Há duas hipóteses:

1ª) Maquilar algumas garrafas.
Você já esteve em uma exposição agropecuária? Já notou a beleza, a perfeição, o charme dos animais expostos? Os bichos são preparados, alimentados (e tome hormônio.....), penteados, lustrados, especialmente, para o evento.

Com o vinho é exatamente a mesma coisa: Há, nas vinícolas, o que costumam chamar de “Barrique dos Jornalistas”. A “Barrique dos Jornalistas” contém um vinho maquiado para enganar os críticos, um vinho que jamais irá para o comércio.

2ª) Não é difícil trazer nas malas, voltando dos Estados Unidos ou da Europa, 50-100-200 garrafas de um bom Pinot Noir da Borgonha. Basta uma pequena ajuda de alguns amigos e familiares (20 garrafas cada) e...... pronto: Já temos a nossa famosa “Barrique dos Jornalistas” made in Brazil.

Enganar meia dúzia de “críticos” não é difícil (lembra-se do Chateau Montelena nos anos 70?) basta encontrar os tolos certos e as carteira$ exata$.

Maquiavélico? Nem tanto.

Se eu fosse mais jovem importaria bons Pinot Noir, Chardonnay, Barolo, Barbaresco, Brunello etc. reengarrafaria com minha etiqueta e...voila: Ganharia uma bela graninha.

Já tenho até o nome do meu Pinot Noir: “Fúlvio By Bacco” ou By-Bacca, como queira.

Nosso paparazzo-Mandrake sabe perfeitamente que é fácil hipnotizar as pessoas que querem ser hiptonizadas; afinal tem gente (Xuxa) que até hoje, acredita em duendes.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Habemus PInot Noir




  


Já falei tanto de Borgonha que tenho até medo de me tornar repetitivo.

  Algumas desastradas declarações, proferidas por meia dúzia de palermas, sobre as qualidades excelsas de um Pinot Noir produzido, com uvas provenientes de vinhedos de apenas três ou quatro anos, no Rio Grande do Sul, me obrigam a retornar, mais uma vez, à região francesa.

Quando os romanos chegaram à Borgonha, há mais de 2000 anos, encontraram vinhas que provavelmente eram as ancestrais do atual Pinot Noir.

Está claro, então, que há dois milênios a vinha era cultivada na Borgonha.

O “Pinot Noir” aparece já no século IV com o nome de Morillon Noir e sua atual denominação surge, definitivamente, a partir do século XIV.

Portanto, caros amigos, os franceses conhecem , selecionam , plantam e vinificam o Pinot Noir há mais de 2000 anos.

Será que aprenderam?

Será que os monges beneditinos e cistercienses perceberam, após séculos de estudos e pesquisas, que a qualidade dos vinhos era melhor quando as videiras eram plantadas na correta altitude, em terrenos de determinada composição, clima, exposição solar e drenagem?

Será que os monges que delimitaram, na idade média, os vinhedos e que até hoje são considerados terroirs típicos da Borgonha eram parvos e perdiam seu tempo?

Será que toda a herança histórica e as experiências acumuladas durante dois milênios serviram para alguma coisa?

Na opinião de quem entende e conhece vinhos, serviu, sim.

Não valeu nada para meia dúzia de babacas que entendem de Borgonha tanto quanto os políticos de ética.

Alguns patéticos patetas (des) gustaram um Pinot Gaúcho (será gaúcho, mesmo?) e o compararam a alguns ótimos Pinot Noir da Borgonha.

Sabe quem foi declarado vencedor?

O vinho gaúcho.

Tchan-Tchan –Tchan –Tchan... Sim, amigos, podemos finalmente bater no peito e gritar para todo o mundo ouvir: Habemus Pinot Noir!!!!!!!!

Um paparazzo, viajante e aventureiro, tomou uns porres na Place Cardot, visitou cinco ou seis vinícolas e se entusiasmou com a região.

 O nosso lambe-lambe se convenceu que na idade média ele havia sido um frade beneditino criado na Borgonha e que agora, reencarnado, sabia tudo de Pinot Noir.

 Vendeu sua máquina fotográfica e, de volta ao Brasil, resolveu transformar o território gaúcho em uma nova e melhor Borgonha.

Os italianos também fizeram algo parecido na Toscana: Queriam transformar a Maremma em uma nova Bordeaux.

 Conseguiram, em parte, pagando os tubos para as canetas de vida fácil e de plantão, mas, enquanto Bordeaux continua ditando e impondo seus e preços, os produtores dos “AIA” (Sassicaia, Ornellaia, Solaia......) não conseguem mais vender suas imitações bordolesas.

Guardadas as devidas e caboclas proporções nosso fotografo tentou fazer a mesmíssima coisa com os críticos-patetas nacionais: Comprou suas canetas e ridículas opiniões.

Já bebi todos os Pinot Noir do planeta (italianos, chilenos, alsacianos, alemães, neozelandeses, sul africanos, argentinos, australianos, californianos do Oregon etc. etc. etc.), mas nenhum chega aos pés de um, por exemplo, “Clos de La Roche” de Jean Raphet. 

O Pinot Noir , assim como o Nebbiolo , não é um Cabernet Sauvignon que se adapta até na Guatemala, o Pinot Noir, para doar resultados excepcionais, exige muito.

 Além do clima e do terreno apropriados o Pinot Noir exige muitíssimo do viticultor e do vinificador: O Pinot Noir não é para um paparazzo de meia tigela e muito menos para sommeliers de tigela comprada!

O nosso ex-monge e agora “paparazzo”, todavia, deve ter um canal exclusivo com o criador do planeta e conversa com ele de igual para igual com muita frequência.

Olá, da barba, tudo em cima? Onde posso encontrar, no Brasil, um terreno igual ao da Borgonha?”

“Caro Narciso, faça o seguinte: Cole um mapa do Rio Grande do Sul na parede”. Feche os olhos e coloque um dedo sobre o mapa. Eu transformarei aquele local em um novo “La Tache”

“Não dá para transformar em um novo La Romanée?”

“Agora, não. Vamos esperar uns dois ou três anos...”.

“Falou e Valeu. Manda bala!”

Surge, assim, o vinho gaúcho que pulverizou 2.000 anos de história do Pinot Noir da Borgonha.

Acredite se quiser e..... Puder.

Na próxima matéria vou revelar como se pode fazer, no Brasil, um Pinot Noir igual aos da Borgonha.

Até mais.

Dionísio