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segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

QUANDO PREDADORES SE UNEM.....




A Antinori e a Ferragamo se unem, mais uma vez, para enfiar a mão no bolso dos incautos adoradores de etiquetas.

Mais uma vez, repito, pois, as duas famílias toscanas já percorrem o mesmo caminho vinícola há anos.


 

Não é somente a amizade e/ou o vinho que une as duas gigantes florentinas.... Há grana, e muita, no pedaço.

 

 Ferruccio Ferragamo é um dos três diretores escolhidos pela Antinori para tocar a holding da família, família, que em 2015 faturou modestos 200 milhões (talvez um pouco mais) de Euros.

As duas "griffes" familiares, com suas atentas antenas toscanas, perceberam que o mercado do vinho caminha, sempre, à procura de novidades e modas.

Ferragamo e Antinori já sabem que, nos próximos anos, a bola da vez será o vinho rosé.

 

O rosé com sua bela cor, fácil de beber, pouco complexo e que agrada em cheio as mulheres, está ganhando, rapidamente, mercado

Os Antinori, em uma de suas propriedades na Maremma (sempre ela.....), mais especificamente na "Fattoria Aldobrandesca", perto da estupenda aldeia de Sovana, "descobriram" terras vulcânicas, próprias , dizem, para o cultivo do "Aleatico".

Quem fez a descoberta foi o enólogo Riccardo Cotarella, desde sempre consultor e diretor da Antinori.

 

Cotarella, o Michel Rolando Lero italiano, que assina vinhos desde o Piemonte até a Sicilia, todos rigorosamente parkerizados, pontuados, pasteurizados, sem nenhuma preocupação com terroir, território, tradição, cultura local etc., resolveu vinificar o "Aleatico", em Sovana e produzir um vinho rosé que, conforme o próprio Cotarella afirma, "... será um vinho de nicho".

Quando a Antinori anuncia que produzirá um "vinho de nicho" é bom reforçar o estoque de cuecas de lata......

 

As cuecas de lata se fazem necessárias para resguardar o que resta da integridade física dos consumidores já estuprados pelos preços dos "Supertuscans" Tignanello, Solaia e dos dispensáveis Cervaro della Sala, Muffato della Sala etc.

Cotarella e Antinori não brincam em serviço; a produção de rosé em Bolgheri, Cortona e Salento (Puglia), já atinge mais de um milhão de garrafas.

Para não perder o costume, a Antinori, encomendou, e o Cotarella prontamente atendeu: um rosé "hiper-exclusivo" e...... caro.

 

A Antinori/Cotarella brindam o mercado com o "A", um Hiper-Estuprador-Rosado (10.000 garrafas) que custa modestíssimos 35/40 Euros (preço de um ótimo Barolo, Barbaresco, Taurasi)

O "A" quer indicar que, a nova jogada rosada da Antinori, foi produzida na "Fattoria Aldobrandesca" no município de Sovana.

 

Os brasileiros, eno-tontos-adoradores-da-Antinori, podem preparar R$ 500-600 para ter o "privilégio" de degustar uma garrafa do "A".

Não quero nem posso imaginar o preço dos próximos rosés B, C, D, G, R etc. da Antinori.

 

Na próxima matéria o rosé dos Ferragamo.

Dionísio

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

IL BAROLO COME LO SENTO IO


 


Durante longos anos Massimo Martinelli foi (continua sendo) um dos maiores protagonistas e interpretes do Barolo.

Sua longa trajetória dedicada ao grande vinho das Langhe inicia na vinícola de seu tio , Renato Ratti, passa pela presidência do "Consorzio di Tutela del Barolo e Barbaresco" , continua em famosas e bem sucedidas divulgações eno-gastronômicas do território (Mangia Longa) e , finalmente,  deságua na literatura.

"Il Barolo Come Lo Sento Io" (O Barolo Como Eu o Sinto) é o título de seu livro escrito em 1971 e republicado, em versão ampliada, em 1993.

Livro de sucesso e leitura indispensável para aqueles que desejam conhecer, mais profundamente, o grande vinho piemontês.

 

Massimo, ativo e atento como nunca, lança , agora, seu:

"Barolo Letterario: Una Bottiglia da leggere"

"Barolo Literário : Uma Garrafa Para Ler"

Traduzo , com satisfação, as informações do lançamento.

 

" Massimo Martinelli retorna ao mundo do Barolo com uma corajosa combinação: partindo de um livro.... se chega a uma garrafa!  

"O Barolo Como eu o Sinto" foi um grande sucesso do enólogo por profissão e artista por paixão.

 

 Publicado pela primeira vez em 1971, o livro foi republicado, em versão nova e ampliada, em 1993.

Para completar um ciclo épico e um percurso emotivo, foi lançada, este ano, uma garrafa de vinho com o mesmo nome:

"O Barolo.....como eu o sinto".

Massimo Martinelli dedicou uma vida ao Barolo; como produtor na vinícola Renato Ratti de La Morra, como presidente do Consórcio Tutelar, como degustador atento e obstinado divulgador, tendo sempre e como objetivo final o Barolo.

Foi selecionada, então, uma produção limitada de preciosas garrafas provenientes da vindima 2012 onde o Barolo encontra, de uma só vez, a excelência, a arte e a poesia.

Na etiqueta há uma passagem particularmente significativa pinçada do livro: um irresistível convite à degustação do precioso líquido e apreciar suas inúmeras qualidades.

 

Notas Técnicas:

COR: grená com reflexos alaranjados

AROMA: aromas delicados e intensos que lembram o alcaçuz, o louro, cogumelos secos e a rosa.

SABOR: seco, austero, moderadamente tânico, de boa estrutura e caráter.

 

ONDE COMPRAR "IL BAROLO..... COME LO SENTO IO"

As garrafas podem ser encontradas em todas as melhores enotecas da região (Alba e arredores) e na "Antica Meridiana Relais Art"


Fone 0039 0174 563364 / 335 5759609meridiana@relais-art.com

 

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

BARBERA VALDEVANI


 


Há algumas décadas, mais exatamente nos anos 1980, muitos produtores do Piemonte resolveram sacrificar a tradição, para atender o "mercado", partiram decididos e "internacionalizaram" seus vinhos.

Era preciso buscar a super concentração nos vinhos, a cor "berinjela", mastigáveis, impenetráveis, alcoólicos, cansativos e previsíveis.
 

Nascem, naqueles anos, os Barolo "modernos", as Barbera barricadas e até o simples e belo Dolcetto é desfigurado na imbecilizante tentativa de torná-lo "importante", potente, internacional.
 
 

Era a moda!

 Nasce o conceito de colheita das uvas super maduras, do desbaste excessivo, do concentrador etc..

Quando o produtor não conseguia, colhendo uvas super maduras e desbaste radical (um ou dois cachos por pé), um vinho quase mastigável e mais parecido com uma geléia, o concentrador entrava em cena.

Grosso modo o concentrador funcionava com a lógica do vácuo: concentrava, sem misericórdia, não somente os açucares, mas tudo o que havia no mosto, obrigando o produtor a intervir tentando corrigir o vinho com outras operações invasivas.
 

O resultado: vinhos que podiam ser cortados com uma faca, mas que agravam Parker, seus sequazes, ao mercado americano e a um monte de eno-tontos.

Hoje, infelizmente, ainda há mercado para os vinhos "marmelada", mas o declínio do consumo é evidente e os produtores já perceberam , faz tempo, que ocorreram grandes mudanças na preferência dos consumidores.
 

Com a mesma velocidade, que tiveram ao adotá-lo, aposentaram o concentrador que hoje é peça de museu.

Mauro, que de bobo não tem nada, confessa: "Nos ano 80 e especialmente 90, nos produzíamos para agradar guias, jornalistas, pontos, bicchieri etc. Eram os anos do concentrador. Quem não tivesse um concentrador na adega era considerado jurássico, desatualizado, quase um retardado. Vinhos densos, impenetráveis estavam na moda e para obtê-los foram cometidos erros e mais erros. Eu percebi a bobagem e abandonei o concentrador há muitos anos"

Poucos viticultores teriam a coragem de confessar o uso daquela maquina de fazer compotas em suas adegas..... Mauro fez o "mea culpa", daí sua honestidade.
 

Enquanto o papo corria solto e os alemães, na mesa ao lado, não largavam o copo, eu degustava a ótima Barbera Valdevani.

Mauro Sebaste tem bom faro, conhece seu território e não teve dúvidas em investir em Vinchio comprando, naquela localidade, algumas vinhas de Barbera.

Para quem não sabe, as belas colinas de Vinchio e Vaglio Serra são consideradas entre as melhores para a produção da Barbera.
 

As terras de Vinchio e Vaglio Serra não produzem uvas comuns, banais e sem valor, doam uvas Barbera de se tirar o chapéu.

Não vou citar nomes, mas alguns (vários) produtores, de etiquetas premiadas, caras e badaladas, compram Barbera de pequenos produtores de Vinchio e Vaglio Serra, por 2 Euros o litro, engarrafam o vinho em suas adegas e o revendem, por 20/30 Euros a unidade, para a alegria dos eno-tontos, adoradores de etiquetas, "bicchieri" e pontos.

Mauro sabe o que as terras de Vinchio são capazes de doar às Barbera e sua "Valdevani Barbera D'Asti" 2015 representa, com muita personalidade, aquele território.
 

A "Valdevani Barbera D'Asti 2015", que provei na adega de Sebaste, é vinificadas com uvas de vinhas com mais de 60 anos, apresenta uma cor rubi brilhante, nariz característico, vinoso e na boca............ Bem , na boca é uma festa.

Barbera clássica, equilibrada, sem predominância do álcool, fácil de beber e que, imediatamente, lembra as antigas e ótimas Barbera que esquentavam e alegravam as tardes e noites de nossos avôs.
 

A "Barbera Valdevani": um triunfo da tradição e do bom beber.

Mauro Sebaste, inteligente viticultor, percebeu que os modismos e os Parker passam, mas a Barbera clássica, a Barbera símbolo do bem beber e do Piemonte não morrerá jamais.

"Valdevani Barbera D'Asti 2015": vale cada um dos 12 Euros que custa.

Bacco

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

BLANC DE MORGEX ET DE LA SALLE III


 


Perdidas as esperanças, de encontrar a "Nus Malvoisie", do pároco Don Pramatton, resolvi seguir viagem e dormir em Courmayeur.

Apesar da neve e do frio intenso, os 70 km, que separavam Nus de Courmayeur não arrefeceram meu ânimo e decidi jantar no "La Maison De Filippo" no distrito de Entreves.

A autoestrada era a opção mais rápida, segura, mas dezenas de túneis não me permitiriam admirar a bela paisagem alpina.
 

Tempo de sobra, pouco movimento....... Resolvi seguir viagem pela via marginal, mais lenta e mais bonita.
 

Quando se passa pelas aldeias de Morgex e La Salle a visão das vinhas, que doam o bom branco local, é impressionante.

É difícil acreditar que naquela altitude (1.000 metros) e clima hostil, as vinhas possam sobreviver e as uvas amadurecer.

Parei inúmeras vezes para admirar o incrível trabalho dos viticultores da região que, com tenacidade e uma boa dose de loucura, cultivam as vinhas em pequenos lenços de terra que a montanha rochosa "esqueceu" de devorar.
 

É impressionante a visão dos muros de pedra que servem de arrimo para os terraceamentos onde são plantadas as vinhas de Prié Blanc, casta que origina o "Blanc de Morgex et De La Salle".

As vinhas de Prié Blanc "escalam" as montanhas até alcançarem impensáveis 1.250 metros, assim, é fácil concluir que as videiras de Morgex e La Salle, as duas aldeias que doam o nome à DOC, estão entre as mais altas da Europa.
 

Mas como podem as vinhas sobreviver e frutificar em um ambiente tão hostil?

Vamos conhecer um pouco mais a Prié Blanc e suas origens.

A casta

A "Prié Blanc" poderia ser classificada como um milagre, mas prefiro entendê-la como um fenômeno.

A casta, única autóctone branca da Val D'Aosta, está presente na região desde tempos imemoráveis e aos poucos conseguiu se adaptar, perfeitamente, às rigorosas condições climáticas dos Alpes.
 

São poucas as variedades que poderiam suportar o frio e o gelo que imperam nos 1.000 metros de altitude de Morgex e La Salle e não surpreende, então, o fato da "Prié Blanc" ser a única cultivada nas aldeias e a única, também, que conseguiu se adaptar ao rigor do clima.

É preciso lembrar que as das aldeias estão a poucos quilômetros do Monte Branco e o clima é de alta montanha....

Para ter uma idéia da adaptação da "Prié Blanc" é preciso lembrar que nestes vales alpinos o inverno é longo, rigoroso e o verão muito curto.
 

A variedade desenvolveu, ao longo dos séculos, um ciclo vegetativo bastante breve, que é caracterizado por uma brota muito retardada e uma precoce maturação dos cachos.

Outra rara característica: A "Prié Blanc" é a única variedade branca, da Val D'Aosta, plantada sem enxerto (pé franco).

As condições climáticas, rigorosas, protegeram a "Prié Blanc" dos ataques da filoxera.
 

Para "se aquecer", com o calor armazenado pelo solo, o cultivo escolhido pelos viticultores é o da "latada baixa".

 "Latada baixa" significa: a pérgula, para receber um pouco de calor do solo, não pode ultrapassar um metro de altura.

 O pouco espaço, entre o solo e as ramas, dificulta sobremaneira o trabalho do viticultor que é obrigado a trabalhar sempre curvado.

O sacrifício é compensado pela pouca umidade e boa ventilação.

A pouca umidade e boa ventilação defendem, naturalmente, as plantas dos ataques dos fungos que quase inexistem na região.

O Vinho

 

O "Blanc de Morgex et de La Salle" é um vinho que raramente ultrapassa os 12°, deve ser consumido em sua juventude, quando exprime todos seus delicados aromas e características.

O "Blanc de Morgex et de La Salle 2015" de Ermes Pavese é um vinho límpido, agradabilíssimo, um irresistível convite para sempre mais um copo.

Rico de tons floreais e minerais, o vinho do Pavese, é uma pequena jóia enológica que custa, pasmem, 8/10 Euros.
 

Para perceber como nós, consumidores brasileiros, somos otários, bastaria lembrar que a "Miolo/Bueno Vinhos de Carregação" vende o "Chardonnay Couvée Giuseppe" (Giuseppe, foi o patriarca da Miolo que descobriu o Lote 43) por insultuosos R$ 110 (30 Euros).
 

Bacco