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domingo, 21 de maio de 2017

MEURSAULT BLAGNY



Em um bar da "Place Carnot", bem no centro de Beaune, consultava a carta de vinhos em taça tentando encontrar algo que não apavorasse, ainda mais, o meu trêmulo e debilitado cartão Visa.

Como todos sabem, beber vinho nos bares e restaurantes da França, não é exatamente barato.
 

Uma taça vinho comum, mas comum mesmo, custa 6/8 Euros.

Uma taça de "Premier Cru" 10/15 Euros.

Segurando com força o cartão, que já queria se mandar, deixei livres meus olhos que , finalmente,  encontraram um "Meursault-Blagny" 1er Cru por 8 Euros.

Meursault-Blagny?
 
 

Juro que, até aquele momento, nunca ouvira falar daquela denominação (aliás, há muitas que não conheço....)

Chamei o garçom e pedi algumas informações sobre o vinho.

O rapaz elogiou, com tanto entusiasmo, o Meursault-Blagny, que resolvi pedir uma taça.

Tomei três.......

Beber três taças não era a solução; precisava encontrar o produtor e comprar aquele vinho.
 

 Sempre achei o Meursault um grande vinho, mas, devo admitir, também, que meus Chardonnay  preferidos são os de Puligny-Montrachet e Chassagne-Montrachet.

Os vinhos de Puligny mais refinados, os de Chassagne mais possantes, os de Meursault mais amanteigados, mas, infelizmente e muitas vezes, amanteigados demais.
 

O Meursault-Blagny de Sylvain Langoureau tem "zero manteiga" e madeira perfeitamente equilibrada e integrada.

Aliás, se você é um amante da madeira, da opulência, da manteiga, nem passe pela rua da "Domaine Sylvain Langoureau": o Meursault-Blagny Premier cru "La Pièce Sous Bois" vai direto à mineralidade, não faz concessões.

O vinho do Sylvain Langoureau é severo, austero.

O "Meursault-Blagny" de Langoureau apresenta sutis aromas florais, na boca revela toda sua elegância e fineza sem dar espaço aos recursos e malandragens do enólogo para torná-lo mais agradável e fácil de beber: O Meursault-Blagny 1er Cru "La Pièce Sous Bois" é um vinho para os que entendem de vinho.
                             hahahahahahahaha

Como encontrar a Domaine Sylvain Langoureau?

Sem acesso à internet, dirigindo o carro em um mar de vinhas, sabia apenas que a vinícola era em Saint Aubin.

Arrisquei e entrei em uma das três ruas de Gamay; Gamay é um pequeno distrito da pequena Saint Aubin.
 

Não cheguei a percorrer 300 metros da "Rue de La Fontenotte" para encontrar a Domaine Sylvain Langoureau que, ironicamente, fica a menos de 100 metros da vinícola de Jean Claude Bachelet.

Devo ter passado dezenas de vezes pelo portão dos Langoureau sem dar a mínima atenção.....

Um toque de campainha foi o suficiente para ser atendido por uma mulher alta, ainda jovem e muito atenciosa.
 

Como o Bachelet me transformou em um eno-idiota, não sei, mas quando degustei o Puligny-Montrachet 1er Cru "La Garenne" e o Saint Aubin 1er Cru "En Remilly" quase morri de raiva ao recordar as vezes que saí de Saint Aubin com o porta-malas vazio.

Degustando aquele "La Garenne" de Langoureau, que nada deve aos Puligny de Bachelet, me senti um perfeito idiota.
 

A Domaine Sylvain Langoureau em seus 9 hectares, espalhados pelos municípios de Saint Aubin, Puligny-Montrachet, Chassagne-Montrachet e Meursault, produz 13 vinhos brancos (Chardonnay) e dois vinhos tintos (Pinot Noir)

Impossível, então, degustar todos, mas a qualidade do Meursault-Blagny "La Pièce Sous Bois", do Saint Aubin "En Remilly" e do Puligny-Montrachet "La Garenne" me convenceram que acabara de "descobrir" um excelente produtor.
 

Uma única saudade do Bachelet: Seu ótimo Chassagne-Montrachet 1er Cru "Blanchot Dessus".

Bacco

sexta-feira, 19 de maio de 2017

BEATO BABACA



 


Conheci o Manoel Beato quando da inauguração do restaurante "Gero" em Brasília.

Antipatia à primeira vista.

Transpirando soberba, empáfia, nosso "sommerdier mor", não fazia esforço algum para tentar esconder um ar de superioridade e quase enfado ao servir os apatetados candangos do Planalto central.
 

O cara era um poço de poses estudadas e mal interpretadas: Um canastrão medíocre e metido.

Bajulado, endeusado, venerado pelos ricaços e corruptos de plantão, que antes da "Lava Jato" não temiam os fotógrafos e abriam, sorridentes, garrafas de Romanée-Conti, Petrus, Vega Sicilia, Barbaresco Gaja, Masseto, etc., Manoel Beato acreditou no papel que interpretava: "Sou um mito"
 

Em um país de eno- cegos, qualquer Polifemo, mesmo com catarata, se considera uma águia das garrafas.

O pavão, das rolhas do Fasano, podia cometer erros bisonhos, proferir imbecilidades à vontade, ostentar conhecimentos que não possuía e posar de sumidade sem problema algum: Manoel Beato continuava a ser considerado o grande sommelier do Brasil.
 

Aqui, na terra do vinho, produzido com uva Santa Isabel, não há problema, mas na Borgonha o buraco é mais embaixo.

O nosso raquítico espantalho, que mais parece ter saído de uma cena da "Família Adams", acreditou que na Borgonha poderia continuar fazendo suas cagadas normalmente e impunemente.
 
 

Ferrou-se!

Ao escalar um cruzeiro, do século XIV, símbolo da região vinícola e tombado pela UNESCO, o Beato-Babaca, parecendo um Tarzan anoréxico e senil, finalmente, tomou um ferro que não esquecerá facilmente.

O único problema: os borgonheses nos olharão como um bando de incultos e iconoclastas terceiro-mundistas.

Num português claro: Asnos
 

Para mim, o "sommerdier" babaca do Fasano, já deveria ter sido soterrado e esquecido quando escreveu essas três imbecilidades que antecipavam a ridícula trepada na cruz medieval. 

Divirtam-se....

Porque este 1982 não tem 100 pontos, indagou um amigo depois do primeiro gole. Um Haut Brion gustativa e olfativamente sublime, com aquele sabor de mel de estrebaria, ou seja, geléias e licores de frutas em meio fumaça de charuto num fim de tarde ao lado de um estábulo. Talvez por isso, por já estar no seu apogeu, diferentemente dos outros 1º cru da mesma safra, tais Mouton, Lafite, Latour, que precisam pelo menos 10 anos mais para seus apogeus. Pois é, tão bom assim, estando tão jovem, talvez não mereça 100, mas, quem sabe Parker ouça nossas impressões e o promova para 99,5. Rss  Seguir 

 

 

 

felipewertheimer, everett_waltrip, marjan_simcic and 232 others like this.

Eis o Bandol uva mourvèdre ao lado do Cornas 87 também velhinho fino e mais forte,uva Syrah, ambos da mesma região Rhone http://t.co/9ctkMUp about 15 hours ago via Twitter for iPhone
 

Velhinho Ch Latour 80 deleitosamente evoluído: cheira peixe de rio. Barro, metálico. Pimenta seca. Outras especiarias. Firme forte fino 12:26 PM Mar 8th via Twitter for iPhone
 

Dionísio.


domingo, 14 de maio de 2017

O MONTRACHET DO LULA



 

Os almoços das sextas feiras , quando estou em Brasília, apesar do cada vez menor número de participantes, continua sagrado.

Alguns convivas morreram, outros já não suportam minhas idéias e, por outro lado, percebo que, para mim, também, é sempre mais difícil aceitar diversidades.

Mas três ou quatro gatos pingados ainda se reúnem para comer, beber e falar mal dos que não estão presentes.

Quando não criticamos os ausentes o prato favorito é a política.

Em uma discussão, no final do ano passado, profetizei que o Lula estaria atrás das grades em janeiro de 2017.

Discussão acalorada, xingamentos, provocações e, finalmente, a aposta.

"Aposto uma garrafa de Montrachet que não vais ser preso".
 
 

Confiante na celeridade de nossa justiça e com o álcool me turvando o cérebro, não pensei duas vezes e......  em março, puto da vida (aprendi com lula), paguei a aposta.

Outra sexta feira, outro almoço, outra aposta com o mesmo amigo.

O amigo apostou e perdeu o mesmo Montrachet, que me havia "roubado" ao teimar e errar o nome do ator de um filme.
 
 

"Vamos acabar com as apostas e beber o Montrachet que, agora, é novamente meu. No próximo almoço você traz o meu Montrachet, um seu Grand Cru e fazemos uma bela festa."

Todos concordaram e, na sexta feira seguinte, fizemos o almoço na casa do amigo que, além de servir o "Montrachet Jaques Prieur", abriu um "Corton-Charlemagne" 2012 da vinícola Chapuis.

Resultado: O Corton-Charlemagne deu um banho no Montrachet.

Apesar de custar muito menos do que o Montrachet (1/4), aquele Corton-Charlemagne revelou aromas mais sutis, elegantes, na boca maior frescor, complexidade e harmonia.

Um grande vinho!

Quando o Marc Morey revelou sua preferência pelo Puligny-Montrachet Premier Cru "La Truffiere", me deu um estalo: "Dane-se o Bachelet e seu Chevalier Bâtard Montrachet! Vou procurar o Chapuis".
 

Para ir de Chassagne-Montrachet até Aloxe-Corton é preciso atravessar Beaune, mas os pouco mais de 20 km dirigindo entre vinhas compensam a chatice e o trânsito intenso da capital da Côte D'Or.

Aloxe-Corton não exatamente uma metrópole.

 Aloxe-Corton é um vilarejo com menos de 150 habitantes e em três minutos encontrei a "Domaine Chapuis".
 
 

 Toquei a campainha e, pra variar, ninguém atendeu.

O enorme portão de ferro não estava trancado.

Com audácia e coragem, próprias dos "enófilos desesperados," forcei o portão, o deixei entreaberto, entrei com cuidado e pronto para correr caso aparecessem alguns cachorros.

Bati com vigor na porta da adega e em poucos segundos apareceu o senhor Maurice Chapuis.
 

Homem alto, corpulento, de meia idade e, aleluia, sorridente.

Expliquei de onde vinha, o quanto me impressionara seu vinho e perguntei se poderia comprar algumas garrafas.

O sorriso se abriu mais ainda e, sem delongas, descemos os numerosos degraus que nos separavam da adega.
 

Adega típica da Borgonha: Escura, baixa, fria e repleta de barriques.

Degustação de alguns vinhos, inclusive de um ótimo "Corton" tinto.

Um pequeno parêntesis: Todos os Grands Crus da Côte de Beaune se localizam nas terras de Puligny-Montrachet e Chassagne-Montrachet?

Não!

Montrachet, Bâtard-Montrachet, Chevalier-Bâtard-Motrachet, Bienvenue-Bâtard-Montrachet e Criots-Bâtard-Montrachet, colados uns aos outros, ou separados apenas por um muro ou uma estradinha, pertencem aos municípios de Puligny e Chassagne, mas em Aloxe-Corton há dois "Grands Crus": "Corton" (branco e tinto), "Corton-Charlemagne".
 

Menos badalados que os primos de Puligny, Chassagne e os grandes tintos da Côte de Nuits, Corton e o Corton-Charlemagne são duas pérolas vinícolas de primeira grandeza.

Um bom papo, três degustações, uma das quais de um ótimo "Corton" tinto, um aperto de mão e seis garrafas do soberbo Corton-Charlemagne 2014 de Maurice Chapuis, foram para o porta-malas do carro.

 
Na próxima matéria: Meursault-Blagny

Bacco


quarta-feira, 10 de maio de 2017

OUTRA VEZ, BORGONHA



Já não lembro quantas vezes visitei a Borgonha, mas sei, perfeitamente, quanto é preciso de paciência para comprar, diretamente, do produtor os grandes brancos produzidos na região.
 

Quando falo "região" estou me referindo especificamente aos vinhos de Puligny-Montrachet, Chassagne-Montrachet, Meursault e Aloxe-Corton.

Comprar as denominações "Bougogne" e "Village" é fácil, o problema aparece quando se desejam os Premiers Crus e os Grand Crus.
 

Aliás, não é um problema, são dois: o peço e a quantidade.

O preço: É praticamente impossível encontrar um Premier Cru abaixo de 40 Euros.

As razões?  A qualidade incomparável dos Chardonnay locais, a "pequena" produção e a sempre maior procura.
 

Os chineses, também, descobriram a Borgonha e, como se já não bastassem os russos e americanos, estão comprando tudo o que aparece pela frente sem dar a mínima para o preço.

Para que se tenha uma idéia, da importância que é reservada aos consumidores de olhos amendoados, as duas vendedoras que atendem na "Caveau Municipal" de Chassagne-Montrachet, são chinesas.
 
 

Visitei, até agora, quatro vinícolas e consegui comprar dez garrafas do "quase amigo" Thomas Morey.

"Quase amigo" porque conheço e compro do Morey há vários anos.
 
 

Marc me vendeu 2 garrafas de Chassagne-Montrachet " Les Dent de Chien", 4 de "Vide Bourse" e 4 de Puligny-Montrachet "La Truffiere" e...... au revoir.

O mais interessante, do papo com Thomas Morey, foi uma revelação que veio, como sempre, após a segunda taça degustada.

Quando perguntei qual de seus vinhos ele preferia, sem pensar duas vezes, Morey respondeu: "La Truffiere".

 

É preciso saber, antes de continuar, que Morey produz, entre outros,  mil garrafas do Grand Cru Bâtard-Montrachet.

Intrigado com sua preferência, indaguei: "Mas o Bâtard é um Grand Cru e LaTruffiere é um Premier Cru?"

"E daí? O Batârd é mais "gordo", possante, enche mais a boca, mas não tem a elegância, finesse e mineralidade do "La Truffiere"

Continuei provocando "Se é assim porque custa o dobro?"

 

"Porque é um Grand Cru! É mais conhecido, procurado e há um exército de bobos que só compram nome e não vinho".

Risadas e mais uma taça de "La Truffiere" para brindar o final nosso encontro.

Jean Claude Bachelet, como de costume, não me vendeu uma única garrafa e estou pensando, seriamente, em deixar de visitá-lo e quase implorar para comprar seus vinhos.

 

O Bachelet produz grandes vinhos, mas já me cansou....

Bruno Collin estava viajando e Gilles Bouton, apesar da minha insistência, em apertar a campainha, não me atendeu.

Mas eu tinha algumas cartas na manga.....

 

Aguardem a próxima matéria.

Bacco